INTERACT2 mostra leve benefício do tratamento agressivo da pressão arterial na fase aguda do Hematoma Intracraniano Espontâneo

Por Maramelia Miranda

tags: hematoma intracraniano, AVCH, AVC hemorrágico, tratamento, pressão arterial na fase aguda.

Hoje foram apresentados em Londres, com concomitante publicação online do artigo na íntegra (AQUI – site da NEJM), os resultados do estudo INTERACT 2, que avaliou a redução intensiva da pressão arterial na fase aguda do AVCH – Hemorragia intracerebral (HIC) espontânea.

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Estudo

Foram estudados um total de 2839 pacientes com HIC que chegavam ao hospital até 6 horas após o início dos sintomas. O alvo de tratamento do grupo ativo do estudo era reduzir agressivamente a PA sistólica (PAS) para < 140 mm Hg na primeira hora após o início dos antihipertensivos EV. O grupo controle recebia tratamento conforme as diretrizes atuais (alvo de PAS <180 mm Hg). O desfecho primário avaliado foi morte ou incapacidade severa, medido pelo escore de Rankin modificado (mRS) em 90 dias. O estudo teve financiamento público (agência de saúde australiana – National Health and Medical Research Council of Australia), e os antihipertensivos utilizados eram escolhidos conforme o julgamento clínico e disponibilidade do serviço.

Resultados

Dos 2794 pacientes que completaram a avaliação de desfecho planejada, 719 (52.0%) dos tratados agressivamente tiveram incapacidade severa, ou seja, mRS de 3-6, versus 785 pacientes so grupo controle (55.6%) (OR para o tratamento intensivo: 0.87; 95% CI, 0.75-1.01; p=0.06). Uma análise complementar mostrou melhores desfechos (menores mRS) no grupo de tratamento intensivo da PA (OR para maior incapacidade: 0.87; 95% CI, 0.77-1.00; p=0.04). A mortalidade e ocorrência de eventos adversos sérios foi semelhante nos dois grupos de tratamento.

Impressões

Os autores concluem o seguinte no texto publicado:

“In patients with intracerebral hemorrhage, intensive lowering of blood pressure did not result in a significant reduction in the rate of the primary outcome of death or severe disability. An ordinal analysis of modified Rankin scores indicated improved functional outcomes with intensive lowering of blood pressure.”

Confesso que esperava que tivesse sido negativo… Não estou de todo errada. Mostrou um desfecho primário não significante, mas com forte tendência de ser melhor (p=0,06).

Com certeza vão ainda discutir bastante estes números e a análise “complementar” – chamada pelo estudo como “ordinal”… Isso vai dar muito “pano pra a manga”… O site do estudo disponibilizou links com a apresentação oficial realizada hoje (vejam abaixo)… Bom material para nós atualizarmos nossos slides :). E a Jennifer Frontera assina um editorial analisando o trabalho – acesse AQUI.

E vocês? O que acharam?

LINKS

Anderson et al. Rapid Blood-Pressure Lowering in Patients with Acute Intracerebral Hemorrhage. NEJM 2013.

INTERACT2 results revealed!. Site oficial do estudo.

Frontera J. Blood Pressure in Intracerebral Hemorrhage — How Low Should We Go? NEJM – related editorial.

Outros estudos apresentados na sessão Ongoing Clinical Trials – ESC London 2013

Leituras (e filme) da semana

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Debate da Folha deste sábado, sobre a vinda de médicos estrangeiros para o  Brasil: Ponto de vista de Alexandre Padilha – “Mais médicos: o cidadão não pode esperar” versus Roberto D’Avila – “Não se faz boa saúde com falácias”… Debate quente!

Filme: Cloud Atlas (título em português – A Viagem). 2012. Dir.: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski (isso mesmo – 3 diretores). Maravilhoso, maravilhoso. Prepare seus neurônios, demora para cair a ficha.

 

 

Mobile Health: Uma realidade não muito distante…

Por Maramélia Miranda

Vejam abaixo dois vídeos: o primeiro, muito interessante, curtinho, de uma rede de TV americana – NBC, onde o Dr. Eric Topol (cardiologista) fala sobre projetos em desenvolvimento e até alguns já em comercialização, na área de Mobile Health, mais conhecida mundialmente como mHealth

O segundo é longo: na verdade, é uma palestra do Dr. Patrick Soon-Shiong, um dos mais conhecidos inovadores e empreendedores dos EUA no campo de TI e Saúde. Quem quiser ver, separe um tempinho…

Mobile Health new technologies

mHealth e a conectividade no século 21

Certamente, o futuro da relação médico-paciente e da saúde mudará com as novas tecnologias…

Stenting carotídeo, e logo após angioplastia com balão, aumenta o risco de AVC: Entenda!

Por Maramelia Miranda                                               English version

Mais uma análise do estudo CREST (Carotid Revascularization Endarterectomy vs Stenting Trial) foi apresentada no congresso SCAI – Society for Cardiovascular Angiography and Intervention (SCAI) 2013 Scientific Sessions, ocorrido este ano em Orlando, FL.

Dr Mahmoud Malas e colaboradores concluiram que, do ponto de vista técnico, alguns detalhes podem fazer a diferença nos desfechos dos pacientes tratados com angioplastia e stenting.

O Estudo

Segundo Malas, muitos neurointervencionistas costumam utilizar o artifício de angioplastia com balão logo após a liberação do stent, com base justamente em estudos anteriores que associaram esta técnica com menores taxas de reestenose. O racional do estudo apresentado no SCIA foi a hipótese de que provavelmente esta estratégia poderia, em tese, causar embolização distal no momento do balonamento.

Os autores, portanto, analisaram o uso desta técnica e os desfechos de reestenose e AVC periprocedimento, usando o banco de dados do estudo CREST. Compararam os dois grupos distintos (pacientes submetidos a angioplastia com balão apenas antes da colocação do stent vs pacientes que tiveram balonamento pós-stenting), analisando taxa de reestenose 2 anos após o procedimento.

Resultados

Um total de 69 pacientes tiveram ATC pré-stenting, 344 foram angioplastados apenas após a liberação do stent, e 687 foram angioplastados pré e pós colocação do stent carotídeo.

Houve 20 AVCs peri-procedimento – 19 no grupo que teve ATC pós-stenting, e apenas 1 caso no grupo com ATC apenas pré-stenting (5.5% vs 1.5%, respectivamente; p=0.26). A taxa de reestenose em 2 anos foi de 10.3% no grupo com ATC pré-stenting vs 3.7% no grupo submetido a ATC pós-stenting (p=0.02).

A conclusão principal da análise apresentada foi de que realizar angioplastia com balão após a liberação do stent carotídeo reduz significativamente o risco de desenvolvimento de reestenose, mas parece aumentar o risco de AVC periprocedimento em até 4 vezes  (HR 3.7; 95% IC 0.5-27.9).

Balonar pós-stenting carotídeo: Fazer ou não fazer?

LINKS

Malas M, Voeks J, Llinas R, et al. Angioplasty following carotid stent deployment reduces the risk of restenosis and may or may not increase the risk of procedure-related stroke. Society for Cardiovascular Angiography and Interventions 2013 Scientific Sessions; May 9, 2013; Orlando, FL.

Why Calls for More Routine Carotid Stenting Are Currently Inappropriate: An International, Multispecialty, Expert Review and Position Statement. Stroke 2013;44:1186-1190.

Fonte da imagem: www.vascularweb.org.

Ultrassom é mais sensível do que ressonância magnética para doença do nervo periférico

Por Maramelia Miranda e Marcos Lange *

Zaidman e colaboradores, da Washington University, em St Louis, publicaram recentemente na conceituada revista Neurology, um estudo pequeno, retrospectivo, avaliando 53 pacientes referidos para o seu laboratório de ultrassom, dos quais 87% tinham doença do nervo periférico comprovada por estudo eletrofisiológico ou biópsia.

Os autores avaliaram, neste grupo de pacientes que tinham os dois exames complementares, a sensibilidade e especificidade do ultrassom neuromuscular (USNM) em comparação com a ressonância magnética de nervo (RM).

O que encontraram? Uma maior sensibilidade do USNM para detecção de lesões – 93% do USNM vs 67% da RM (43/46 casos com doença (+) pelo USNM; versus 31/46 com doença (+) pela RM). P<0.001.

A especificidade foi semelhante entre os dois métodos: 86% de chance de exclusão de patologia neuromuscular para US ou RM.

As doenças ou alterações que foram visualizadas no USNM, mas não pela RM foram: espessamento de nervo periférico (n=8), tumor da bainha nervosa (n=3), compressão por feixe muscular anômalo (n=1) e hemangioma (n=1).

Vantagens do USNM:

– menor custo, maior rapidez do exame;

– maior resolução espacial;

– imagem do nervo em continuidade (diferentemente da RM, em slices);

– maior facilidade de comparação do lado normal vs anormal;

– maior facilidade de detectar alterações segmentares do calibre do nervo.

Vantagens da RM:

– Maior contraste entre tecidos;

– Melhor imagem de estruturas profundas, nervos próximos ao osso;

– Melhor caracterização de estruturas e realces com uso de contraste e diferentes sequências de ressonância.

Por fim, o estudo sugere uma abordagem diagnóstica, onde, no algoritmo de avaliação inicial por imagem da neuropatia periférica, caso o local da suspeita de neuropatia possa ser estudada por US , priorizar este método ao invés da indicação direta de neurografia por RM.

Algoritmo sugerido para a avaliação por imagem das lesões de nervo periférico. Adaptado, com permissão de C. Zaidman (autor). Clique na imagem para ampliar.

LINKS

Zaidman et al. Detection of peripheral nerve pathology: Comparison of ultrasound and MRI. Neurology 2013;80:1-7.

* Dra. Maramelia Miranda é neurologista e neurossonologista da UNIFESP e do Fleury-SP; Dr. Marcos Lange é neurologista e neurossonologista do Hosp. de Clínicas, UFPR.

Leituras da semana

..:

Resumo da conferência americana de AVC 2013, que ocorreu no Havaí, publicado na Newsletter MD Conference Express ISC 2013, da American Heart Association.

Mesenchymal stem cell transplantation attenuates brain injury after neonatal stroke. Artigo original publicado na Stroke de Abril de 2013.

Alzheimer biomarkers in clinical practice. Medscape Neurology: Apr 1.

Does thrombectomy have a future in Stroke? Hans Diener para Medscape: Mar 26.

E para desligar um pouquinho das leituras neurológicas:::

Os 25 países menos visitados do mundo

Como economizar na viagem das férias usando a tática do “cara-ou-coroa”.

Uma pequena comparação dos preços (exorbitantes) dos restaurantes de São Paulo com Paris e Nova Iorque…

A “The Economist” constata: São Paulo é a 2a. cidade mais cara do mundo para se ter um carro. Do site g1.com.br.

Meus Top 10 Apps para celulares

Por Maramélia Miranda

Não vivo sem eles. Os chamados Apps, ou aplicativos (Obs: se não sabiam o que era o termo “apps”, precisam acordar para o mundo!!!), já fazem parte da rotina de todos os usuários de smartphones.

Os aplicativos abaixo me ajudam no dia a dia, na prática clínica, na avaliação diária dos doentes, no trânsito parado, ou quando simplesmente não estou fazendo nada. E quando não lembro de algo, porque sabemos ser impossível decorar todas as escalas neurológicas existentes atualmente, ao invés de procurar em sites de busca na internet, tenho-as na palma da minha mão… Quando quero relaxar, nada melhor do que ver imagens deslumbrantes de verdadeiros artistas das fotografias, pelo Instagram.

A seguir, meus top 10 FREE APPS (em ordem alfabética):

1..:: AppsGonefree – este app mostra, todo dia, uma listinha de aplicativos pagos que ficam temporariamente gratuitos. Ou seja, vc consegue boas barganhas com alguns apps bem interessantes. Não há versão para Android.

2..:: EDSS Calc – calculadora para escala EDSS em Esclerose Múltipla. Hoje ferramenta indispensável para tratar e acompanhar os pacientes com EM (o cálculo desta escala é obrigatório para a dispensação dos medicamentos modificadores da doença, na Secretaria de Saúde de SP). Procure em IOS e Android; o aplicativo em IOS é pago (U$0,99), em Android (EDSS Calculator) gratuito.

3..:: Instagram – Para quem gosta de fotografia, se escolher usuários “bons”, adorará… Em IOS e Android.

4..:: Lanterna LED HD – Simples como seu nome: uma lanterna no celular. Uso muito para examinar pupilas (a luz é bem power!!!)  🙂

5..:: Neuromind –  Bendito Pieter Kubben (desenvolvedor). Este é o app mais completo em Neurociências que conheço. Se alguém tiver outro melhor, me fale. O Neuromind inclui várias coisas para Neurocirurgia (classificação de MAVs, classificação ISUIA 2003 para risco em aneurismas cerebrais, escalas de TCE), mas tb coisitas em Neuroclínica, como escala ICH para os hematomas, escore ABCD2 em AIT, escore CHADS2-VASc em FA, e vários tipos de escores… Perfeito para o dia a dia e para o ensino. Em IOS e Android.

6..:: PDF Printer – Como diz o nome, grava qualquer página da web em formato PDF. Para Android, há o Web to PDF, PDFprint, entre vários.

7..:: PubMed on Tap – tenha na sua mão a busca do PubMed, mas na versão app. Nos Androids, procure o app PubMed Search, pois existem vários do mesmo tipo.

8..:: Shazam (ou SoundHound) – para descobrir quem canta aquela música que vc ouve, adora, mas não sabe qual é. Maravilhoso. Em IOS e Android.

9..:: STAT NIH Stroke Scale – versão hiperfácil – eletrônica, para fazer a escala do NIH do AVC – escala para avaliação do AVC agudo. As versões para Android são pagas (grande maioria).

10..:: TinyScan – basicamente, um scanner no seu celular.Você fotografa e a foto vira um arquivo PDF. E você pode mandar o arquivo para quem quiser via email. Muito bom para enviar documentos, formulários, cópias de docs, eletronicamente. Para Android, procure o CamScanner.

ATENÇÃO: A maioria destes apps existe em versões para IOS (iPhones) e Android. Se vc é médico, e não tem ainda um smartphone com sistema IOS (iPhone) ou celulares com Android, uma sugestão: pense nesta ideia.