Angiopatia Amilóide Cerebral: Critérios diagnósticos

Atualizado em Maio/26. 

Atenção. Doença difícil, difícil de manejo, difícil bater o martelo que é ela mesmo, com clínica nem sempre tão clara, pois envolve, além dos sangramentos, que podem ser bem variados, também o declínio cognitivo, clínica de AITs ou de demência em boa parte dos casos, e até mesmo leucoencefalopatia simulando quadros inflamatórios. A decisão clínica torna-se mais complexa quando há indicação de antiagregar ou anticoagular por outras causas…

Enfim, é bom sempre revisar os conceitos e o que há de atual na sua terapia. Abaixo, critérios diagnósticos atuais e tratamentos relatados em papers recentes.

Critérios Clínicos de Entrada

Para aplicar os critérios de Boston 2.0, o paciente precisa obrigatoriamente preencher os seguintes requisitos:

  • Idade: Ter 50 anos ou mais (na versão anterior, a idade mínima era 55).

  • Apresentação Clínica: Apresentar pelo menos um dos sintomas clássicos da doença:

    • Hemorragia intracerebral (HIC) espontânea;

    • Episódios neurológicos focais transitórios (TFNEs — também conhecidos como “amyloid spells”);

    • Declínio cognitivo ou demência.

 

Categorias de Diagnóstico (Boston 2.0)

1. AAC Definitiva

  • Exame post-mortem (autópsia) completo demonstrando:

    • Presença de hemorragia lobar, cortical ou corticosubcortical.

    • AAC grave com vasculopatia associada.

    • Ausência de outra lesão diagnóstica que explique o quadro.

2. AAC Provável com Patologia de Suporte

  • Dados clínicos compatíveis + avaliação de tecido patológico (biópsia cortical ou fragmento de hematoma cirurgicamente evacuado) demonstrando:

    • Algum grau de deposição de proteína beta-amiloide nos vasos da amostra.

    • Ausência de outra lesão diagnóstica.

3. AAC Provável (A categoria mais usada na prática clínica via RM)

O paciente cumpre os critérios clínicos (Idade anos + sintomas) e a Ressonância Magnética (em sequências sensíveis a sangue, como T2* ou SWI) demonstra um dos dois cenários abaixo:

  • Cenário A: Pelo menos duas ou mais lesões hemorrágicas estritamente lobares/superficiais, em qualquer combinação:

    • Macro-hemorragia intracerebral lobar.

    • Micro-hemorragias cerebrais (microbleeds) corticosubcorticais.

    • Siderose superficial cortical (focos ou disseminada) ou Hemorragia Subaracnoide da Convexidade (HSAc).

  • OU

  • Cenário B (A grande novidade da versão 2.0): Apenas uma lesão hemorrágica lobar/superficial combinada com pelo menos um marcador microvascular de substância branca:

    1. Espaços perivasculares severos no centro semioval (CSO-PVS); ou

    2. Hiperintensidades da substância branca em padrão de múltiplos pontos (multispot pattern na sequência FLAIR).

  • Critérios de Exclusão Obrigatórios para AAC Provável:

    • Ausência de qualquer lesão hemorrágica profunda (núcleos da base, tálamo ou tronco encefálico), que sugeririam vasculopatia hipertensiva crônica.

    • Ausência de outras causas para o sangramento (trauma, tumores, coagulopatias severas, malformações vasculares).

    • Nota: Lesões no cerebelo não contam nem como lobares nem como profundas nesta avaliação.

4. AAC Possível

O paciente cumpre os critérios clínicos e a RM demonstra:

    • Apenas uma lesão hemorrágica estritamente lobar/superficial (macro-hemorragia, micro-hemorragia ou siderose superficial); ou

    • Apenas um dos marcadores de substância branca descritos acima, na ausência de lesões profundas e de outras causas.

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Enfim… Complexo não?

O que mudou da versão 1.5 para a 2.0?

  1. Redução da idade: Passou de 55 para 50 anos, capturando casos mais precoces.

  2. Inclusão da Substância Branca: Pela primeira vez, alterações não-hemorrágicas na substância branca (espaços perivasculares aumentados e padrão multispot de leucoencefalopatia) ganharam peso de diagnóstico quando associados a um único sangramento.

  3. Valorização da Siderose Superficial e HSAc: Ganharam maior destaque como marcadores independentes de sangramento lobar superficial.

Essa atualização permite que os neurologistas e radiologistas identifiquem a Angiopatia Amiloide Cerebral em fases menos avançadas da doença, otimizando o manejo clínico (como o cuidado rigoroso com o uso de antitrombóticos e anticoagulantes).

Para o tratamento, nunca esquecer: evitar antiagregantes ou anticoagulantes, controlar a pressão arterial, se possível evitar uso de estatinas, e em casos mais raros (encefalopatia ou leucoencefalopatia aguda), considerar imunossupressão.

Ou seja, você não pode dar nada na maior parte dos casos, apenas sentar ou ajoelhar, e rezar… Veja a versão original dos critérios, a seguir.

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LINKS

Charidimou et al.The Boston criteria version 2.0 for cerebral amyloid angiopathy: a multicentre, retrospective, MRI-neuropathology diagnostic accuracy study. Lancet Neurology 2022. 

Fotiadis et al. Cortical atrophy in patients with cerebral amyloid angiopathy: a case-control study. Lancet Neurology 2016.

Arima et al.Effects of Perindopril-Based Lowering of Blood Pressure on Intracerebral Hemorrhage Related to Amyloid Angiopathy.The PROGRESS Trial. Stroke 2010.

Knudsen et al. Clinical diagnosis of cerebral amyloid angiopathy: Validation of the Boston Criteria. Neurology 2001.

Greenberg et al. Amyloid Angiopathy–Related Vascular Cognitive Impairment. Stroke 2004.

Samarasekera et al. The association between cerebral amyloid angiopathy and intracerebral haemorrhage: systematic review and meta-analysis. JNNP 2012.

Boyle et al. Cerebral amyloid angiopathy and cognitive outcomes in community-based older persons. Neurology 2015.

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