AVC em jovens e crianças: Causas, sintomas e como prevenir!

Por Maramélia Miranda, Neurologista vascular, CRM-SP 88.549, RQE 97.572

** (Atualizado em Junho/2026).

Aumento de casos de AVC em jovens

Jovens podem ter AVC? Sim. E cada vez mais temos tido notícias de que o aumento de casos de AVC em jovens é uma realidade no mundo e no Brasil. Dados do registro de AVC brasileiro Joinvasc, realizado continuamente em Santa Catarina, demonstram que houve um aumento da incidência de AVC isquêmico no intervalo de 10 anos (análise dos casos entre 2005 e 2015), durante três diferentes períodos, em cerca de 66%, sem aumento na incidência do AVC hemorrágico. Ou seja, de forma similar aos estudos que mostram aumento de incidência de AVC em jovens em países desenvolvidos, isso foi também observado no Brasil, considerado país de média e baixa renda, mas às custas do AVC de subtipo isquêmico.

 

Sintomas comuns

Ponto principal: Os sintomas não aparecem lentamente. Quase todo AVC começa DE REPENTE, de forma súbita, ou percebido ao acordar. Na população jovem, os sintomas são iguais aos apresentados nos mais velhos.

Os sintomas mais comuns são:

  • Desvio da rima labial e rosto (a boca fica “torta”). Fala diferente, enrolada. E se observar o rosto, percebe-se a paralisia ao falar ou pedir para sorrir, mostrar os dentes.
  • Fraqueza ou formigamento de um lado do corpo. Pode se desenvolver subitamente, atingindo em maior ou menor grau o braço, ou perna, ou o lado todo do rosto e corpo. A pessoa percebe fraqueza, sem conseguir levantar ou pegar objetos no lado afetado.
  • Dificuldade para falar, ou parada da fala. A fala fica incompreensível, ou a pessoa para de falar, não consegue emitir palavras e frases.
  • Desequilíbrio. Pode haver tontura súbita, vertigem (tontura com sensação de rodar tudo) e dificuldade para ficar de pé e andar.
  • Alteração da visão. Sintoma de visão simplesmente embaçada, ou ardência, ou escurecimento com falhas do campo da visão,  percepção de visão dupla ou desvio da movimentação nos olhos.
  • Dor de cabeça muito forte, estranha e SÚBITA. Dor intensa, comumente descrita como a pior dor da vida, podendo levar a mal-estar, convulsões ou desmaio na hora da dor.
  • Sintomas típicos (qualquer um dos descritos acima) que aparecem, ficam por alguns minutos e depois revertem espontaneamente. Isso é bem característico de uma ameaça de AVC, o que chamamos de AIT (Ataque Isquêmico Transitório).

 

Causas e Doenças de risco

As causas comuns de AVC em pessoas jovens e crianças são um pouco diferentes do AVC no adulto e idosos:

  • Dissecções de artérias do pescoço ou crânio. Tipo de AVC mais frequente em pessoas jovens que apresentam AVC isquêmico ou AIT. Leia mais sobre dissecções aqui.
  • Doenças do coração. Em crianças, é uma causa mais comum, associada à formação de coágulos dentro do coração, que se desprendem e vão até o cérebro, levando ao entupimento de artérias e ao AVC. Outra alteração frequentemente associada ao AVC em jovens é o forame oval patente, tipo de comunicação intracardíaca que pode provocar embolia e o AVC nesta idade.
  • Doenças do sangue (hematológicas). Se a pessoa tiver propensão a formar coágulos no corpo (trombofilia), ela pode desenvolver um AVC.
  • Infecção no sistema nervoso central (meningite ou encefalite). Alguns agentes infecciosos, como as bactérias da sífilis e da tuberculose, os vírus herpes simples ou o herpes zoster, podem levar à inflamação das membranas e vasos do cérebro, causando o fechamento destes vasos e consequentemente uma isquemia – o AVC. Por isso, é importante pesquisar esta causa em pessoas mais jovens e em crianças.
  • Aneurisma cerebral ou malformação arteriovenosa cerebral (MAV). Estas duas doenças podem levar ao tipo de AVC chamado de hemorrágico, tipo bem grave de AVC que ocorre quando um vaso rompe dentro do cérebro e provoca um hematoma intracraniano.
  • Fatores de risco metabólicos, hormonais e cardiovasculares. No grupo de jovens, tem se observado um impacto maior de condições anteriormente associadas à idade, como colesterol alto, sedentarismo, hipertensão arterial, apneia do sono, além de uso indiscriminado de terapia hormonal e abuso de drogas. Estes são fatores que podem explicar o aumento da incidência de AVC nos jovens, nos últimos anos.

 

Como investigar o AVC em jovens e crianças

Quem teve ou está tendo um AVC deve ser inicialmente atendido em uma emergência de hospital. Lá poderão ter acesso a avaliação de urgência e realizar o principal exame de imagem feito em um caso de AVC: a tomografia do crânio.

Na emergência, além do exame clínico, o médico deverá excluir outras causas de déficits neurológico súbitos (como, por exemplo, hipoglicemia, enxaqueca ou epilepsia), diferenciar se foi um AVC isquêmico ou hemorrágico, e avaliar, em sendo AVC isquêmico, se a pessoa poderá ou não receber o trombolítico, medicamento que, quando administrado até 3-4,5h do início dos sintomas, pode reverter os déficits neurológicos em cerca de 40% dos casos. A seguir, os exames principais a serem feitos em todos os casos de AVC:

  • Exame físico. Para avaliar os déficits neurológicos (paralisias) presentes, nível de glicemia, níveis de pressão arterial, temperatura, etc…
  • Exames de sangue. Na entrada do hospital, os principais são os exames de glicemia (açúcar) no sangue e testes de coagulação. Depois, a depender de caso a caso, outros testes são pedidos pelo neuro assistente.
  • Tomografia do crânio. Este é, sem dúvida, o principal exame na fase mais aguda (primeiras horas) do AVC, único que pode diferenciar entre o AVC isquêmico ou hemorrágico, crucial para direcionar a abordagem médica nas primeiras horas.
  • Angiotomografia do crânio. Importante no AVC isquêmico, para determinar se tem algum vaso (artéria) grande obstruída, situação onde deve ser feita a terapia de trombectomia — caso o paciente esteja dentro das primeiras 24 horas do início dos sintomas do AVC.

Depois do atendimento rápido e emergencial, outros exames devem ser feitos, nas horas seguintes, e fazem parte da investigação das causas do AVC:

  • Ressonância Nuclear Magnética do crânio. Trata-se de um exame mais sensível e apurado do que a Tomografia, que analisa e dá a extensão e locais exatos de onde ocorreu o AVC. Embora seja melhor do que a tomo, pela logística de sua realização e por não estar disponível em qualquer lugar, não é o exame de escolha para todos os casos.
  • Ultrassonografia das carótidas. Avalia se há alguma obstrução ou placa aterosclerótica, nestas artérias que passam no pescoço, e que são as responsáveis por levar sangue ao nosso cérebro.
  • Doppler transcraniano. È muito importante quando há suspeita de estenoses e não se pode fazer nem a angiotomografia, nem a angioressonância. Outra importância é para a pesquisa de shunt, alteração como se fosse um desvio do sangue no coração que está presente em Forame Oval Patente, uma causa comum de AVC isquêmico em jovens.
  • Ecocardiograma. Este é um ultrassom do coração, que avalia se as cavidades cardíacas estão normais ou apresentam alteração.
  • Holter de 24 horas. Este exame é importante nos pacientes mais idosos, quando há uma suspeita de AVC isquêmico por causa de alguma arritmia cardíaca, principalmente a temida fibrilação atrial.

Quais os tratamentos?

Sendo um AVC isquêmico, se o socorro for feito antes de 4,5 horas do início dos sintomas –> existem dois remédios, chamados de alteplase ou tenecteplase, que podem dissolver o coágulo e restabelecer o fluxo de sangue no cérebro, revertendo os sintomas.

Se o paciente tiver uma obstrução de uma grande artéria cerebral ou do pescoço, a depender do tempo de socorro, pode ser indicado um cateterismo para desobstruir localmente o vaso – a Trombectomia Mecânica.

Se o AVC for do tipo hemorrágico, o tratamento de primeira linha é abaixar a pressão arterial, se a pressão estiver acima de 140/90mmHg.

A meta de controle da pressão atualmente – nas primeiras horas e dias de tratamento de um AVC hemorrágico, é manter a pressão menor de 140/90mmHg. Além disso, o paciente deve ser internado em UTI ou NeuroUTI, para melhor monitoramento, pois estes pacientes podem complicar e piorar.

Quando o hematoma, o sangramento, é muito grande, e o paciente está ficando sonolento ou entra em coma, pode ser indicada cirurgia para retirada deste hematoma.

 

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** Dra. Maramélia Miranda é neurologista com com residência e pós-graduação realizados na UNIFESP-EPM, especializada em AVC e Doppler Transcraniano, e editora do blog iNeuro.com.br.