Esclerose Múltipla

Por Maramélia Miranda ** (Atualizado em Maio 2015)

Tags: esclerose múltipla, vitamina D, doenças desmielinizantes, surto, interferon, fingolimod, tratamento da esclerose múltipla, esclerose múltipla tratamento.

Esclerose Múltipla (EM) é uma doença neurológica que pode ser potencialmente incapacitante a médio e longo prazo, se não for reconhecida e tratada adequadamente. A doença provavelmente é causada por uma desregulação da imunidade individual, que começa a destruir a própria mielina – proteína que envolve os neurônios, levando aos sintomas específicos do problema. 

Este dano à mielina leva à interferência da comunicação entre os neurônios do cérebro, medula e as partes do corpo inervadas por estes. Os sintomas da EM podem variar bastante, dependendo das áreas afetadas, e a doença em si pode ter graus variados de acometimento, desde graus leves de doença (com surtos mais esparsos) até formas de doença mais graves.

Tipicamente, a doença se manifesta rapidamente, na forma de perídos de “surto” intercalados por fases de “remissão” – quando a doença fica “adormecida”, sem causar nenhum sintoma. Esta é a forma mais comum da EM, a forma remitente-recorrente. Outra forma, mais rara, é a forma primariamente progressiva, assim denominada quando os sintomas são de início lento e progressivamente piores.

A EM é uma doença sem cura, mas que pode ficar controlada bastante tempo, e com a possibilidade de vários diferentes tipos de tratamentos a longo prazo bastante efetivos, e no Brasil estes tratamentos, apesar do seu alto custo, são disponibilizados gratuitamente à toda a população pelo Sistema de Saúde público do país – o SUS.

Sintomas

Podem variar bastante, a depender do local ou locais onde está acontecendo a desmielinização:

  • Formigamento, adormecimento ou fraqueza em algum membro.
  • Borramento da visão de um ou ambos os olhos, de início rápido, geralmente com dor associada.
  • Visão borrada ou visão dupla.
  • Sensação de choques em uma ou várias partes do corpo.
  • Alteração do equilíbrio /ou do andar.
  • Tremor nas mãos, falta de coordenação para pegar objetos.
  • Fala arrastada, fanhosa, dificultada.
  • Tonturas ou vertigens.
  • Fadiga excessiva.

Pacientes com EM podem ter maior sensibilidade ao calor, o que pode piorar ou agravar os sintomas da EM.

Um grupo dos pacientes com EM pode ter uma forma mais leve e benigna da doença, com surtos ocorrendo mais raramente, sem haver progressão ou piora da doença. Nestes casos, a doença fica estacionada e não progride para incapacidades mais graves, os surtos são bem esparsos e muitos dos casos apresentam até mesmo a remissão da doença por longos anos.

Atualmente, com o advento dos tratamentos mais novos, um número cada vez maior de indivíduos com EM na forma surto-remissão estão evoluindo com a forma mais leve da doença.

Causas

Ainda não há certeza, existe hoje inclusive bastante especulação e pesquisas nesta área, mas a maioria dos estudos e resultados dos tratamentos atualmente disponíveis levam a se pensar que realmente a causa autoimune seja a principal na EM.

O processo auto-imune é semelhante a uma inflamalção, que envolve a mielina, bainha de proteína que recobre os nervos no cérebro e medula. A mielina pode ser comparada, para um melhor entendimento, à capa de plástico que reveste os fios elétricos.  Uma vez sendo afetada, sem esta “capa”, os neurônios não poderão transmitir corretamente os impulsos nervosos ao longo do corpo, levando aos sintomas.

Fatores de Risco para Esclerose Múltipla

Alguns fatores de risco já estão bem estabelecidos, diante das recentes pesquisas:

  • Idade: apesar de poder ocorrer em qualquer idade, a faixa de idade mais frequente é dos 20 aos 40-45 anos.
  • Sexo: ocorre duas vezes mais frequentemente em mulheres.
  • Fator genético: se há casos de EM em familiares próximos, o risco de desenvolver a doença sobe para 1-3% além do risco geral da população sem este fator de risco (que é de cerca de 0,1%).
  • Etnia / Raça: determinadas raças, como brancos com ascendência européia, são mais suscetíveis do que outros como asiáticos, negros ou americanos.
  • Localização geográfica: a EM é bem mais comum em países do hemisfério norte, Europa, Canadá, norte dos Estados Unidos, ou no extremo sul, como o sul da Austrália e Nova Zelândia.
  • Outras doenças autoimunes, como diabetes tipo I, doenças da tireóide ou doença inflamatória intestinal, predispõem à ocorrência de EM.
  • Níveis baixos de vitamina D no sangue: dados clínicos de grandes estudos recentes indicam que esta alteração pode contribuir nas crises e desenvolvimento da doença. Veja mais informações sobre isso AQUI.
  • Pesquisas recentes (publicadas em 2015) correlacionam níveis baixos de algumas vitaminas, como vitaminas do complexo B, no intestino e sangue dos indivíduos portadores de EM.

Na consulta com o Neuro…

Antes de mais nada, você deve saber que o profissional que trata a Esclerose Múltipla é o neuroclínico. Ao comparecer à consulta, além de levar todos os exames complementares que você já tiver feito (ressonâncias, liquor, exames de sangue, etc…), atentar para o seguinte:

  • Anotar os sintomas que tem sentido, intensidade e freqência destes.
  • Observar se há mudanças dos sintomas com a temperatura – clima do local onde reside ou com o ambiente onde está.
  • Listar medicamentos que você está usando.
  • Se puder, ir acompanhado de algum amigo ou familiar, que possa lembrar de coisas que você possa vir a esquecer, ou fornecer informações ou percepções que você não saiba explicar.
  • Exames médicos solicitados

Para o correto diagnóstico da EM, o neurologista clínico – além de examinar minuciosamente o paciente, geralmente pede alguns estudos complementares, como:

  • Exames de sangue, para verificar infecções, problemas reumatológicos ou vasculites, que podem simular sintomas de EM;
  • Punção do Liquor cefalorraquiano – exame fundamental na avaliação de todo caso suspeito de EM, mostrará se há ou não inflamação, elevação de proteínas;
  • Ressonância magnética. Poderá ser do cérebro – cabeça, e/ou da medula inteira, para verificar se há lesões com características de EM e o número das lesões; e também para verificar se há novas lesões, com captação de contraste, o que indica a presença de nova inflamação / auto-imunidade;
  • Em alguns casos, potenciais evocados neurológicos.

Tratamento

A EM não tem cura, mas tem muitas opções de tratamento atualmente.  Durante os surtos, ou crises agudas, o principal é o uso de corticóides pela veia, para reduzir a inflamação naquele momento. O mais usado atualmente é a metilprednisolona (Solu-Medrol). Alguns casos que não melhoram, ou mais graves, precisam usar a plasmaferese, um procedimento que faz um tipo de limpeza do sangue, retirando as células de autoimunidade que estão destruindo a mielina.

Para o controle e redução da quantidade e intensidade dos surtos, as medicações utilizadas são:

  • Beta interferons. Exemplos são os medicamentos Avonex, Betaferon, Rebif. São medicamentos injetáveis, aplicados por via intramuscular, primeiras terapias modificadoras de doença usadas em EM.
  • Acetato de Glatiramer (Copaxone). Também injetável, mas na forma subcutânea (semelhante às injeções de insulina) em dose diária.
  • Fingolimod (Gilenya). Uma nova medicação, em forma de comprimido tomado em dose única diária. Foi a primeira droga oral dispnibilizada para EM, e exige, na sua primeira tomada, uma monitorização cardiológica mais próxima, pelo efeito colateral possível de bradicardia (queda dos batimentos do coração). Há notícias de que o fingolimode entre no rol de medicações dispensadas pelo SUS a partir de janeiro de 2015. 
  • Natalizumab (Tysabri). Medicamento injetável, usado em casos que não respondem aos remédios acima, em formas mais graves da doença.
  • Mitoxantrone. Tipo de imunossupressor também usado em casos mais graves.
  • Teriflunomide (Aubagio). Outro novo medicamento oral, que tem efeitos colaterais de alteração do fígado. Ainda não disponível no Brasil.

Clicando AQUI você verá uma tabela com o resumo destes medicamentos.

Lembrando que o governo brasileiro dispensa alguns dos medicamentos acima pelas Secretarias de Saúde dos estados brasileiros. Para ver mais informações como recorrer a este benefício, veja link do nosso site AQUI e a lista dos medicamentos dispensados AQUI.

Cuidado com os tratamentos mirabolantes descritos na internet, que falam do uso ISOLADO de doses altas de vitamina D para os pacientes ou sobre a colocação de stents para estenoses de veias do cérebro ou no pescoço. 

+++   A eterna discussão do leigo sobre EM e Vitamina D (comentários e perguntas frequentes)

+++ Consenso Brasileiro sobre o uso de Vitamina D em Esclerose Múltipla – 2014

Estas terapias (uso de mega doses de vitamina D ou stents venosos) ainda não tem comprovação científica ou não se mostraram efetivas em nenhum estudo clínico sério envolvendo pacientes com EM. São, portanto, terapias experimentais. Elas nunca devem substituir totalmente o tratamento de primeira linha, que são as terapias modificadoras da doença.

Estilo de vida e orientações finais

Se quiser pesquisar na Internet sobre a doença, pode fazê-lo, desde que saiba filtrar e escolher bem as informações que verá. Lembre-se que a Internet tem de tudo, e muito mais coisas ruins do que boas. Procure informações confiáveis.

Quanto às orientações de estilo de vida…

  • Repousar quando possível. A fadiga é um sintoma comum na EM, e você não deve se culpar por senti-la. Respeite seus limites.
  • Manter exercícios físicos, dentro do seu limite. Nada de exagerar.
  • Manter-se em lugares mais amenos. Sabendo que os sintomas podem piorar no calor, é recomendado sempre evitar locais muito quentes, se refrescar se possível.
  • Aliviar o estresse. Sabendo que o estresse pode ser um desencadeador e piora o curso da doença, atividades como terapia psicológica, ioga, massagens, meditação e respirações profundas são sempre bem vindas ao portador de EM.

** Dra. Maramélia Miranda é neurologista com formação pela UNIFESP-EPM, editora do blog iNeuro.com.br.

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