Por Maramélia Miranda*** (Atualizado em Setembro/2026)
O que é demência?
Pra começo de conversa, o termo “demência senil”, muito usado por aí, não é o mais correto, e não deve mais ser utilizado.
Dentro do diagnóstico suspeito ou confirmado de demência, devemos tentar identificar o tipo da demência, se é vascular (causada por AVCs), ou degenerativa (doenças com progressão).
Os sintomas que podem sugerir ou indicar uma demência necessariamente devem afetar pelo menos duas esferas das funções superiores que só nós, seres humanos, temos. Na maioria dos casos, a pessoa é diagnosticada com demência quando ela tem pelo menos dois sintomas, a maioria deles sendo pelo menos um com problemas de memória recente, e podendo pegar também outras esferas, como orientação, cálculo, linguagem, habilidades sociais, habilidade para se vestir, resolver problemas do dia a dia, mexer com dinheiro, não conseguir se cuidar, dirigir, juízo.
Uma alteração de memória pura não é demência. Mas se a pessoa tiver a alteração de memória e mais uma alteração de comportamento (apatia, agressividade, confusão mental, problema para falar de surgimento progressivo, por exemplo), isso já é uma demêmcia.
Tipos de demência
A principal causa de demência atualmente é o tipo devido a Doença de Alzheimer. Esta é uma demência chamada degenerativa, pois acontece e vai piorando com o tempo.
Existem outros tipos, como a demência vascular, que é causada por doença cerebral e cardiovascular levando a múltiplos AVCs, e isso levando aos problemas cognitivos somados.
Existe a demência mista, ou seja, duas ou mais causas de demência juntas levando aos sintomas. Neste caso, o mais frequente são os dois tipos principais de demência: a do tipo Alzheimer somada à vascular.
Sintomas
Podem variar bastante, mas uma coisa é certa: Quase sempre os sintomas aparecem de leve, e progridem lentamente, isso nas demências ditas degenerativas, as mais frequentes.
Os sintomas mais frequentes estão descritos a seguir, dependendo da “esfera” acometida.
Alterações de memória, como:
- Dificuldade / perda de memória, mais comumente a memória recente
- Dificuldade em realizar atividades mais complexas, em planejar, se organizar
- Dificuldade de coordenação
- Dificuldade em se localizar, a pessoa pode se perder no seu bairro, sua cidade
- Dificuldade em reconhecer pessoas, familiares, ou achar nomes das coisas
Alterações de comportamento ou psicológicas, como:
- Mudança de personalidade
- Apatia, incapacidade de reagir às situações
- Sintomas de confusão mental, paranóia, alucinações, até mesmo agressividade
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Fatores de risco. Como prevenir????
Sempre todo mundo quer saber: o que posso fazer para me prevenir? Existem fatores de risco que não podemos mudar, como a genética ou idade mais e mais avançada; e existem aquelas coisas onde podemos atuar, intervir.
Fatores de risco modificáveis – Coisas que podemos fazer, para tentar prevenir demências:
- Uso de álcool em excesso, drogas, e tabagismo. Evitar, óbvio.
- Aterosclerose. Pessoas com carga de doença aterosclerótica podem ter micro-pequenos derrames ou isquemias, que em anos e anos de evolução, podem causar demência vascular.
- Pressão alta. Tratar adequadamente níveis de pressão mais alta comprovadamente previnem a demência, sobretudo nos tipos vascular e sintomas do Alzheimer.
- Colesterol e diabetes. Tratar adequadamente problemas de colesterol e triglicérides, e o diabetes, comprovadamente previnem a demência, sobretudo no tipo vascular.
- Depressão. Ter doenças psiquiátricas, e não tratar depressão, está relacionada a maior frequência de demências.
- Atividade física, social e intelectual. Sabe-se que manter-se ativo, trabalhando, fazer leituras, sair, conversar, socializar, praticar atividade física, são coisas que comprovadamente beneficiam o cérebro, e podem ajudar a prevenir o surgimento de problemas de memória e demência.
Quando suspeitar?
Se houver algum sintoma dos acima, que você está percebendo em algum amigo ou familiar próximo, é prudente levar a pessoa para consultar-se com neurologista clínico. Lembrete, é raro a própria pessoa perceber a sua alteração. Na maioria das vezes, é a família, ou próximos, que percebem que a pessoa não está bem das ideias…
Dependendo da causa, alguns tipos de demência podem ser tratados e seus sintomas revertidos; a demência de causa vascular, por exemplo, pode ser estacionada, e conseguimos que ela não progrida, piore.
Em relação às demências degenerativas, como as secundárias ao Alzheimer, frontotemporal ou por corpos de Lewy, mesmo sabendo que não há até hoje um tratamento curativo, com o uso de medicamentos e orientações, podemos melhorar muito a vida dos pacientes e seus cuidadores / familiares. Além disso, sabendo que estes tipos progridem inexoravelmente, é muito importante saber qual o tipo de demência da pessoa, para a família poder se planejar para o futuro.
Tipos de Demência
A principal causa de demência atualmente é o tipo devido à Doença de Alzheimer. Esta é uma demência chamada degenerativa, pois aparece por causa da destruição das células do cérebro (deposição de amilóide), e vai piorando com o tempo. É um tipo progressivo.
Existem outros tipos, como a demência vascular, que é causada por doença cerebrovascular levando a múltiplos AVCs – Acidente Vascular Cerebral, e isso levando aos problemas cognitivos somados. E à demência.
Existe a demência mista, ou seja, duas ou mais causas de demência juntas levando aos sintomas. Neste caso, o mais frequente atualmente são os dois tipos principais de demência: a do tipo Alzheimer somada à vascular.
Demências progressivas. Aparecem lentamente e progridem, pois não há tratamento curativo para estes tipos, até os dias de hoje.
- Demência por Doença de Alzheimer. É a causa mais comum de demência. Geralmente aparece em pessoas após os 60 anos. Casos em mais jovens associam-se a problemas genéticos. A causa já está bem conhecida, e decorre de deposição de uma proteína chamada beta-amilóide nos neurônios, que causam a disfunção destas células, e consequentemente os sintomas de demência. Não há tratamento curativo até hoje. Apenas condutas e remédios que minimizam e retardam o surgimento dos sintomas.
- Demência por Doença de Lewy. Este tipo ocorre em cerca de 10% das demências. É mais raro. É progressivo, e costuma vir com sintomas de demência alternando com dias, períodos em que a pessoa fica mais lúcida. Muito frequentemente a pessoa tem sintomas de tremores e rigidez, semelhante ao Parkinson.
- Demência Frontotemporal. Costuma aparecer em uma faixa de idade um pouco mais jovem do que nos casos de Alzheimer, entre 50 e 70 anos. Os sintomas predominantes são alterações de personalidade, comportamento e linguagem, exatamente as funções predominantes dos lobos frontal e temporal no cérebro.
- Demência pela Doença de Parkinson. Uma parcela das pessoas que tem Parkinson podem desenvolver em fases mais avançadas, sintomas de demência, condição chamada de Demência relacionada à doença de Parkinson.
Demências potencialmente tratáveis, ou que podem estacionar. São os tipos de demência onde você pode conseguir uma estabilização dos sintomas, e algumas vezes até mesmo a reversão e cura.
- Demência vascular. O segundo tipo mais frequente de demência, que pode avançar e progredir se a pessoa tiper Alzheimer junto, ou pode estacionar se forem tratadas as causas dos AVCs, e a pessoa parar de ter AVC. Muito comumente, esta demência pode vir junto com o Alzheimer. A causa mais frequente deste tipo é ocorrer um AVC em uma área “nobre” do cérebro, como área da memória ou de função executiva superior; outra causa frequente são múltiplos AVCs na pessoa que não se cuida adequadamente.
- Demência devido a doenças imunológicas, metabólicas ou infecciosas. Doenças como meningites, encefalites, lupus eritematoso, hipotireoidismo, esclerose múltipla e borreliose (presente nos EUA) são exemplos que podem levar à demência. Uma vez tratadas as condições, os sintomas podem reverter ou pelo menos estacionar.
- Demência por problemas nutricionais. Pessoas alcoólatras, que comem mal, ou pessoas com deficiência de vitamina B12 e B1, podem desenvolver sintomas de demência, e estes sintomas podem reverter se houver reposição adequada da vitamina em falta.
- Demência por Hematomas subdurais. A pessoa é mais idosa, bate a cabeça em algum lugar ou quando tem uma queda, e meses depois ocorre um sangramento no espaço entre o osso e o cérebro. Este é um exemplo típico de hematoma subdural, que pode dar sintomas iguais à demência de outras causas. Drenando, operando o hematoma, se consegue reverter os sintomas.
- Demência por Hidrocefalia de pressão normal (HPN). Este tipo de demência é potencialmente tratado com cirurgia, colocando-se uma válvula na cabeça. Leia mais AQUI. É importante fazer a tomografia e ressonância, porque uma vez suspeitada, a indicação da válvula pode estacionar e até melhorar os sintomas de demência.
- Demência por traumatismos cranianos. Às vezes, um jovem ou mais idoso sobre um trauma craniano muito sério, e pode, depois de recuperar-se, ficar com problemas de memória e problemas executivos / cognitivos. Isso não é tão infrequente. Pelo menos, nestes casos, os pacientes costumam não evoluir, e até mesmo melhorar com terapias cognitivas.
- Demência por depressão. Sim. É sério. Depressão pura e simples, principalmente em idosos, pode causas, amigos, pode dar sintomas iguais, iguaizinhos à demência por Alzheimer, por exemplo. Por isso é muito importante saber deste tipo de causa, e tentar associar o começo dos sintomas, se houve algum fator externo, perda familiar, financeira, estresse, preocupação da pessoa acometida. E muitas vezes costuma-se até mesmo optar-se por tratar uma possível depressão, como um teste para ver se esta pode ser a causa.
Exames pedidos em suspeita de demência
Primeia coisa: Passar com o neurologista. Este médico deverá aplicar testes de memória na pessoa, de orientação, funções de linguagem, atenção, etc, para detectar se há acometimento e em qual esfera.
Depois da avaliação neurológica, deste exame cuidadoso e dos testes neuropsicológicos, sempre devem ser feitos:
- Exames de sangue – Para excluir causas metabólicas, infecciosas, hormonais, ou nutricionais de demências
- Tomografia ou Ressonância do crânio – Sempre deve ser feita, para excluir causas como hematomas, hidrocefalia de pressão normal, tumores, ou AVC (demência vascular / multi-infartos)
- Angioressonância do crânio e cervical – Quando suspeita-se de demência vascular
- Testes de Medicina nuclear – Podem ajudar na suspeita clínica, e os exames mais pedidos nesta área são o SPECT Cerebral e o PET-CT cerebral
- Exame de Liquor cefalorraquiano – Existem substâncias e marcadores no líquido que reveste o cérebro, que podem ajudar o neuro a montar o quebra-cabeças do diagnóstico / causa da demência, e dar dicas para a causa da demência, sobretudo quando suspeita das degenrativas, como o Alzheimer. Problema: Este exame é novo, caro (mais de 4 mil reais), e nenhum plano de saúde dá cobertura. Portanto, reserva-se quando há dúvida realmente, quando não se pode esperar meses para este diagnóstico, ou quando a família tem condições de arcar com seu custo.
Tratamentos
Nos casos com causa que pode ser tratável, tem que tratar a causa.
Entretanto, a maioria das demências, aquelas degenerativas, infelizmente, não tem cura, mas um certo controle dos sintomas. Os atuais tratamentos são:
- Inibidores de colinesterase. Exemplos são a donepezila, a rivastigmina e a galantamina. Podem retardar o avançar dos sintomas em algumas demências degenerativas, e melhorar sintomas.
- Memantina. Outra classe de remédios que tem efeitos parecidos com os inibidores de colinesterase.
- Terapias anti-amilóide. Classe mais nova de drogas que atuam na deposição da proteína amilóide cerebral, na forma de infusões mensais ou quinzenais, que conseguem limpar do cérebro a proteína amilóide – veja abaixo detalhes deste tratamento.
- Medicações para agitação, sono e confusão mental. Os mais comuns são os neurolépticos, como risperidona, quetiapina, olanzapina, entre outros. Ajudam o paciente a ficar mais calmo, e ajuda os cuidadores a conseguir cuidar melhor dos pacientes. Podem ser usados também indutores de sono.
- Terapias. Fisio, fono, TO, reabilitação cognitiva, são alguns exemplos.
Tratamentos ou Medicamentos Anti-Amilóide
Os tratamentos anti-amiloide representam uma classe de terapias modificadoras da doença que foram recentemente desenvolvidas atuando apenas nas fases iniciais da Doença de Alzheimer, com o racional de remover o acúmulo da proteína beta-amiloide no cérebro.
Principais Fármacos da Classe
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Lecanemab (Leqembi): Anticorpo monoclonal administrado por infusão intravenosa a cada duas semanas. Demonstrou retardar a progressão do declínio cognitivo e funcional em cerca de 27% ao longo de 18 meses em ensaios clínicos.
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Donanemab (Kisunla): Administrado mensalmente por via intravenosa, com estudos que mostraram uma redução de amiloide, e de forma diferente do lecanemab, permitindo a pausa do tratamento após a limpeza completa das placas.
É importante salientar que os dados que temos até o momento revelam que estas medicações não conseguem reverter a perda neuronal ou sintomas da doença; seu papel é desacelerar o avanço dos sintomas.
As terapias anti=amilóide acima descritas estão indicadas em parcela pequena dos casos de Doença de Alzheimer – apenas para pacientes com Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) ou fase de demência leve por Alzheimer. Não há benefício demonstrado em estágios moderados ou avançados. Nos casos apontados, deve haver a confirmação com exames de imagem ou do liquor, da presença da deposição de amilóide. É a confirmação da doença por Biomarcadores, indispensável comprovar a presença de patologia amiloide no cérebro antes de iniciar o tratamento, por meio de PET scan amiloide ou análise de biomarcadores no líquido cefalorraquidiano (LCR) ou sangue.
O principal risco associado a essa classe de tratamento são a ocorrência de Anormalidades de Imagem Relacionadas à Amiloide (ARIA):
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ARIA-E: Edema (inchaço) no tecido cerebral.
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ARIA-H: Micro-hemorragias cerebrais ou hemossiderose superficial.
Embora a maioria dos casos de ARIA seja assintomática e resolvida espontaneamente, alguns pacientes podem apresentar dores de cabeça, tonturas, confusão ou episódios mais graves. O monitoramento do tratamento antiamilóide, portanto, exige que o médico peça regularmente o exame de ressonância magnética do crânio. Pacientes portadores do alelo APOE ε4 em teste genético, que apresentem angiopatia amilóide cerebral, ou em uso concomitante de anticoagulantes, apresentam risco aumentado para essas complicações.
Outras dicas dobre a demência por Alzheimer você pode ler AQUI.
+++ Alzheimer: O que fazer e o que não fazer!!!
+++ Alzheimer: Reconhecendo seus sintomas
** Dra. Maramélia Miranda é neurologista com formação pela UNIFESP-EPM, editora do blog iNeuro.com.br.

o médico disse que minha mãe está com demência.
ela pode morar só?
ela pode matar?
ela fala que roubo as coisas dela mas é mentira, muitas coisas n existem.
posso corrigir e dizer que é mentira? fico com ela dez dias no mês e não sei como agir.
me ajudem…