Monitorar PIC em TCE grave: novo estudo mostra benefício

Por Maramélia Miranda

tags:: pressão intracraniana, estudos clínicos, monitorização, terapia intensiva neurológica, tratamento, traumatismo craniano


Embora amplamente utilizada na prática de terapia intensiva neurológica, não há uma evidência robusta do benefício da monitorização da pressão intracraniana (PIC) como coadjuvante para o tratamento de hipertensão intracraniana (HIC) em pacientes vítimas de trauma cranio-encefálico (TCE) grave. Recentemente, Farahvar e colaboradores estudaram uma coorte prospectiva e multicêntrica de pacientes com TCE grave (banco de dados da “Brain Trauma Foundation New York State”), avaliando a frequência de monitorização da PIC e sua relação com a mortalidade nestes pacientes. O estudo incluiu pacientes com TCE e escala de coma de Glasgow (ECG) < 9, cuja apresentação no hospital tivesse sido com < 24h do trauma. O desfecho clínico avaliado foi mortalidade em 2 semanas. Dos 2134 pacientes com estas características em um período de 9 anos (2000 a 2009) de coleta do banco de dados prospectivo, 1446 receberam terapia anti-HIC nas primeiras 48h de hospitalização (ex.: manitol, derivação ventricular externa, solução salina hipertônica, barbitúricos ou cirurgia descompressiva). Deste grupo selecionado, 1202 (82.9%) tiveram monitor de PIC e 244 pacientes foram tratados ” às cegas” (sem monitorização da PIC).

Resultados. No grupo com PIC monitorada, a mortalidade em 2 semanas foi de 19.6%, contra 33.2% do grupo sem monitorização (p < 0.0001). Estes achados foram corroborados pela regressão logística, que encontrou um impacto da monitorização da PIC com a menor mortalidade em 2 semanas (OR 0.63; 0.41-0.94, p = 0.02). Os grupos avaliados diferiram nas variáveis de idade – mais jovens nos monitorados (38.3 +/- 17.5 anos vs 45.9 +/- 21.8 anos; p =0.0001); e de frequência de anormalidades pupilares – menos presente nos monitorados (23.0 % vs 32.6 %, p = 0.003). Outras variáveis, como menor pontuação na ECG, TC anormal e presença de hipotensão no D1 da hospitalização, também foram indicadores independentes de pior prognóstico.

Problemas. É um estudo bastante significante, afinal, trata-se um número expressivo de pacientes… Mas os autores não obtiveram informações sobre: porcentagem de pacientes que tiveram retirada de cuidados médicos (nos dois grupos, sobretudo no grupo com monitor de PIC); racional para a escolha entre monitorar ou não os pacientes; método (ou variabilidade de método / técnica) da monitorização da PIC, considerando ser um estudo multicêntrico; ou a efetividade atingida de controle da PIC nos pacientes avaliados. Por último, mas não menos importante, o critério em considerar a mortalidade em 2 semanas (tão curto período) como desfecho primário foi escolhido pela informação presente em mais de 85% do banco de dados avaliado, diferentemente da escala de outcomes de Glasgow, usada comumente nos estudos clínicos em Neurotrauma.

Bom, é um assunto “quente”. Certamente irá gerar discussões, sobretudo em se tratando da sua publicação em uma revista de excelente qualidade e fator de impacto (Journal of Neurosurgery).

Deixo aqui a lembrança aos colegas neurointensivistas e neurocirurgiões, mostrando-os o quanto temos de espaço para trabalhar projetos e novas ideias neste campo, nas nossas UTIs e NeuroUTIs. Principalmente em nosso país, onde há locais sem disponibilidade de uso de monitorização de PIC… A faca e o queijo, nas nossas mãos.

LINK – acesso livre à íntegra do artigo:

Farahvar A, Gerber LH, Chiu Y, Carney N, Hartl R, and Ghajar J. Increased mortality in patients with severe traumatic brain injury treated without intracranial pressure monitoring. J Neurosurg 2012;117:729-34.

Evidência: O Programa da Saúde da Família é eficiente no AVC?

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Por Norberto Cabral e Gisele Sampaio

O acidente cerebrovascular (AVC), um dos maiores problemas de saúde pública mundial e primeira causa de óbito no Brasil, foi responsável em 2010 por 9% de todos os óbitos ocorridos no país (99.732/1.136.947). A evolução das taxas de incidência entre a década de 70 até os anos 2000 demonstra que a quantidade de novos casos em todo o mundo dobrou em países de baixa e média renda, e diminuiu 40% em países de alta renda. Estas diferenças são expressão da qualidade da prevenção seja pública ou privada.

No Brasil, onde 78% da população (150 milhões) usam o SUS, esta prevenção ocorre nos ambulatórios dos bairros. Ela é focada, principalmente, nas pessoas portadoras de hipertensão arterial, diabetes, tabagismo e colesterol elevado e visa, fundamentalmente, prevenir dois desfechos duros: AVC e infarto do miocárdio.

Desde 1994, existem no Brasil dois modelos principais de assistência ambulatorial pública: as unidades do Programa da Saúde da Família (PSF) e as unidades não-Saúde da Família, os chamados “postinhos” ou UBSs (Unidades Básicas de Saúde).

O PSF, visto como um programa ideal e sendo foco estratégico do Ministério da Saúde, realmente funciona? Quais as evidências de efetividade?  A pergunta é pertinente, até porque cada equipe custa 30% mais que o modelo usual.

Em um estudo com seis anos de seguimento, publicado em outubro de 2012, no American Journal of Public Health, Cabral e colaboradores da Universidade da Região de Joinville acompanharam 241 pacientes que sobreviveram ao primeiro AVC  ocorridos em 2005 e 2006, em hospitais públicos  de Joinville  (500 mil habitantes, dois terços usuários do SUS) e que voltaram para suas casas, continuando a prevenção secundária nos seus respectivos ambulatórios, comparando os dois tipos de tratamento preventivo (PSF vs não-PSF).

Conseguiram demonstrar que o modelo PSF é mais eficiente que o modelo convencional.  Entre os pacientes que foram pelo menos duas vezes ao ano ao seu posto, foram comparadas as taxas de um segundo AVC, a ocorrência de um infarto do miocárdio ou óbito ao longo de seis anos, entre 103 pacientes no grupo PSF e 138 pacientes não-PSF.

Em seis anos, 38% (39/103) dos pacientes que estiveram sob assistência das 35 unidades PSF de Joinville (que atendem 36% da população) faleceram. Entre os que tiveram assistência nas 21 unidades não-PSF,  54% (75/138) tinham falecido.  Foram consideradas variáveis como a influência da gravidade do primeiro AVC e grau de escolaridade.

Curva de sobrevida apos 6 anos do primeiro evento de AVC, dividido entre pacientes em tratamento no PSF e não PSF.

O estudo concluiu que a prevenção secundária e regular em unidades PSF reduziu em 16% o risco absoluto de óbitos ou, visto de outra forma, a cada sete pacientes tratados no modelo PSF, um óbito foi evitado. Embora não significativa, a diminuição da morbidade pode ser menor também entre nos pacientes do grupo PSF, pois 30% (31/103) tiveram um segundo AVC ou um infarto do miocárdio contra 36% (50/138) no grupo não PSF.

Modelo do PSF – Ministério da Saúde

No modelo do PSF, cada equipe atende por agendamento, entre 600 a 1000 famílias cadastradas, em uma equipe composta por clínico geral, um enfermeiro, quatro agentes de saúde e que recebem salários competitivos com o mercado. As unidades não-PSF, criadas antes do modelo PSF, não tem agentes de saúde e são compostas por clínicos, enfermeiros, ginecologistas e dentistas que atendem por demanda.

De um programa restrito a poucas regiões do país em 1994, o modelo PSF está em franca expansão nacional. Atualmente o PSF atende 100 milhões e está presente em 90% das cidades brasileiras. Popular, é comum se ouvir dos candidatos a prefeito que irão ampliar o número de unidades PSF.

O modelo PSF tem mais de 15 anos de existência. Já existiam evidências robustas de eficácia do PSF na redução da mortalidade infantil, e os resultados de Joinville, que precisam ser replicados em outras cidades, mostra também eficácia na mortalidade de pessoas adultas. Isto não é pouco, pois idade é um fator de risco mais potente que hipertensão arterial e o país irá envelhecer muito nas próximas décadas.

Obs. Texto adaptado da Newsletter NeuroAtual, Out/2012.

Vitamina D e Esclerose Múltipla: Mais evidências desta interação

Por Maramelia Miranda

tags:: esclerose múltipla, vitamina D, terapia, tratamento, fatores ambientais, estudos com vitamina D

Que a vitamina D deve ter alguma influência sobre a prevalência/risco, o curso e a evolução da Esclerose Múltipla (EM), isso certamente não temos mais dúvida. A hora agora é saber o quanto, ou quais seriam os níveis séricos protetores de vitamina D, em tese respondendo até quanto poderemos dar aos pacientes na terapia de reposição…

Nesta linha, mais um estudo foi publicado, há 4 dias, na edição de 20/11/12 da revista Neurology tentando estabelecer este número “mágico”.

O estudo observacional, realizado na Universidade de Umea, na Suécia, utilizou um banco de amostras de sangue coletado de programas de saúde populacionais locais desde 1975, analisando e comparando controles normais e pacientes que desenvolveram posteriormente a EM. Salzer e colaboradores analisaram o risco de EM e os quartis de níveis da vitamina nas amostras estudadas. Chegaram ao ponto de corte de níveis de vitamina D > 75 nmol/L versus < 75 nmol/L, e encontraram um menor risco de EM nos indivíduos com níveis de 25-OH vitamina D > 75 nmol/L (OR 0.39, 95% CI: 0.16–0.98)…

Conclusão dos autores (redação original):

“This study supports the presence of an association between high 25(OH)D levels during the years preceding disease onset and a decreased risk of MS. In the very limited material with samples drawn in early pregnancy, where month-of-birth effects were controlled for, we found no association between gestational 25(OH)D levels and MS risk in the offspring. Decreasing 25(OH)D levels in the population may contribute to explain the increasing MS incidence that is suggested from epidemiologic studies.”

Obs. Alguém me ajuda em encontrar um conversor de unidades, para saber qual seriam estes níveis em ng/mL (unidade comumente usada aqui no Brasil)?????? O que revisei de literatura fala em níveis deficitários abaixo de 25nmol/L e suficientes acima de 50 (nas unidades usadas nos EUA e Europa)… Ou seja, o achado deste estudo sueco seria um ponto de corte 50% maior?

Transferindo para os valores e unidades brasileiras (normal > 30ng/mL; insuficiente < 20ng/mL) –> o ponto de corte encontrado no estudo sueco seria de 45ng/mL?

Ajuda dos “universitários” …. Comments, please!!!!!!!!!!

Quanto mais “gelado”, melhor!!!

Por Maramélia Miranda

Enquanto nós aqui no Brasil ainda penamos para implantar nos nossos hospitais (públicos e privados) o tratamento sistemático com hipotermia em pacientes pós-PCR (terapia de primeira linha nesta condição), tentando montar e fazer funcionar protocolos institucionais de hipotermia nas UTIs… Ah… Far away, very far away from this situation

O mundo já discute não mais a efetividade deste tratamento, mas qual a temperatura ideal para metas de melhores desfechos clínicos.

No congresso (semana passada) da AHA, em Los Angeles, e em publicação online simultânea (na Circulation aqui), foram apresentados os resultados preliminares de um estudo espanhol que testou hipotermia com temperaturas diferentes (32°C vs 34°C). Sabemos que a terapia é indiscutivelmente benéfica para melhorar desfechos neurológicos, mas as recomendações falam atualmente em temperaturas de 32°C a 34°C, sem especificar qual seria o melhor nível entre estes.

Estudo pequeno, mas inteligente e interessante em tentar responder uma das muitas questões ainda abertas neste campo, como: Esfriar até quanto? Por quanto tempo? Qual o melhor tipo de dispositivo? Como melhor medir a temperatura? Como reduzir variações de temperatura? Como amenizar os efeitos colaterais?

Lopez-de-Sa e col (estudando 36 pacientes, braços de tratamento com 18 doentes cada) demonstraram que esfriar no nível de 32°C foi melhor do que com 34°C… Sugiro a leitura do paper, e do seu respectivo editorial.

Parabéns aos colegas madrilenhos, que mesmo diante de atuais circunstâncias econômicas extremamente adversas para inúmeras áreas, incluido-se aí a Medicina e pesquisas, ainda conseguem fazer ciência de boa qualidade.

Alerta para nós brasileiros. Quando iremos parar de reclamar que  “não dá pra fazer”? Que  “é tecnicamente difícil”, que  “não temos condições / equipamentos / enfermagem / estrutura na UTI…” , etc??? Desculpem-me amigos, realmente fico chateada com este blablabla todo…

Quando iremos começar a estudar e (principalmente) colocar esta boa prática médica NA NOSSA ROTINA DIÁRIA por aqui, eih?!!!

LINK PARA LEITURA

Lopes-de-Sa E et al. Hypothermia in Comatose Survivors From Out-of-Hospital Cardiac Arrest. Pilot Trial Comparing 2 Levels of Target Temperature. Circulation 2012;126:00-00 (publicado ASAP).

PS. Enquanto isso, como neurologista clínica que sou, esta é a minha “vida real” na maioria dos locais onde sou interconsultora:

1 – Chamam o Neuro para avaliar o caso de pós-PCR, depois que o paciente “não acorda”, geralmente após alguns dias da PCR, e depois de (alguns dias) de ter sido desligada sua sedação… E da permanência do coma.

2 – Daí eu faço a pergunta-chave: “Fizeram hipotermia?” E o outro lado responde:  “Que?! Não sei, deixe-me ver aqui na evolução… Humm.. Espere, vou perguntar pra enfermagem, mas você quer que iniciemos então hipotermia?!”

Algumas vezes, dá vontade de responder: “O que você acha de fazer trombolítico EV num caso de AVCi após 14 dias?! Ou de uma laparotomia exploradora numa apendicite após 15 dias? Ou numa drenagem de um hematoma subdural agudo num anisocórico após 24 horas? Inês já está morta (e o cérebro também)… O que tinha de queimar, já queimou, e a hora de salvar, já passou.”

Corticóides e antivirais em Paralisia de Bell: Evidence-based Update 2012

Por Maramélia Miranda

Ah…! Agora quero ver…! Será que vou continuar “pegando” os vários pacientes com prescrições de valaciclovir (como costumeiramente pego!) nas Paralisias de Bell??? Continuarão os defensores dos antivirais a prescrevê-los indiscriminadamente por aí…???

Um novo guideline publicado pela Academia Americana de Neurologia, em Novembro de 2012, atualiza especificadamente as condutas relacionadas ao uso clínico de corticosteróides (CE) e antivirais nestes casos… E o resumo das evidências é:

1) Sim aos corticóides

2) Não aos antivirais (salvo em alguns casos com contraindicação aos CE).

PARA LER MAIS

Gronseth GS and Paduga R. Evidence-based guideline update: Steroids and antivirals for Bell palsy. Report of the Guideline Development Subcommittee of the American Academy of Neurology

From Medscape: “Why Neurology needs The Beatles”

Por Maramelia Miranda

Não costumo (re)postar conteúdo de outros sites aqui no Blog, mas este artigo-entrevista com Dr. Concetta M. Tomaino, colega de pesquisas do mais famoso neurologista-escritor Oliver Sacks, fala lindamente sobre os efeitos da música em algumas doenças na área de Neurologia, como Parkinson, demências e afasias… Que texto realmente interessante…!

Link AQUI — > Mending the Brain Through Music (Medscape Neurology)

Atenção: nada de ficar ouvindo… Ou pior! Prescrevendo aos seus pacientinhos: Luan Santana, Gustavo Lima, Michel Teló, Calipso, Empreguetes, entre outras “coisas” deste nível…

Sejam seletos, for God´s sake !!!!

I Multirão Brasileiro de Doppler Transcraniano em Anemia Falciforme

Por Maramélia Miranda

Ontem ocorreu um fato inédito na Neurossonologia do nosso país.

Em uma iniciativa inovadora do Dr. Ayrton Massaro, presidente do World Stroke Congress 2012, e com o apoio incondicional da Academia Brasileira de Neurologia – Dra. Elza Tosta, bem como do DC de Doppler Transcraniano – Drs. Marcos Lange e Ana Cláudia Leite, e do Hospital da Criança de Brasilia – Dra. Cristiane Low, foi realizado o primeiro de (se Deus quiser!) muitos futuros multirões em realização de Doppler transcraniano em Anemia Falciforme no Brasil.

Em um país de dimensões continentais como o nosso, onde o acesso ao DTC é restrito, sobretudo dos pacientes mais carentes e socio-economicamente menos favorecidos – como são a maioria das nossas crianças portadoras de AF… Foi realmente um marco. Muitos deles nunca tinham feito o exame para monitorização de sua doença. Os números iniciais serão divulgados nos próximos dias…

Guardamos de lembrança o trabalho totalmente voluntário dos colegas médicos-neurologistas e neurossonologistas que participaram desta ação inovadora. Dos que vieram para seguir a semana no congresso mundial, dos que vieram exclusivamente para o multirão, dos que nos ajudaram no Hospital da Criança de Brasília, do suporte da Dra. Cristiane Low – neuropediatra e neurossonologista do hospital, dos colaboradores que cederam suas máquinas de DTC para aumentar o número de crianças examinadas… Enfim!!!! Vejam abaixo alguns cliques inesquecíveis.

Ana e Marcos redigindo os laudos.

Esta foto foi um teste do super-zoom da minha câmera... Não é que funciona mesmo?! Carla Moro concentrada.
Turma inteira. Cristiane Low, coitada, já cansada no final do dia... Parabéns a todos!!!!

Guillain-Barré: plasmaferese, imuneglobulina, corticóides ou nada a fazer?

Por Maramélia Miranda

Caros, nestes tempos de mudança de estações, saída de inverno, chegada do verão, nos deparamos com alguns casinhos de polirradiculoneuropatias inflamatórias desmielinizantes agudas — Síndrome de Guillain-Barré (SGB).

E nos dias de hoje, temos que lidar com os hospitais, operadoras e planos de saúde, exigindo relatórios para justificar as medicações prescritas… Um bom exemplo disso são os caso de SGB, quando temos que indicar terapias de alto custo, como plasmaferese ou imuneglobulina endovenosa hiperimune (IgEV)…

Além dos hospitais, planos e convênios, devemos sempre lembrar que temos cada dia mais que lidar com os pacientes e familiares super-ultra-bem informados (graças à Internet e globalização da informação), bem como com alguns assuntos controversos, até mesmo dentro da própria comunidade neurológica.

E daí volta a mesma questão: dar ou não dar corticosteróides (CE) em SGB?!??!?! Entra ano e sai ano, e a questão sempre volta… Tenho uma opinião formada sobre isso, e há controvérsias em diferentes escolas neurológicas dentro do Brasil. Mas tudo bem, vamos lá.

Não custa nada relembrar:

1 – Imuneglobulina EV e plasmaferese são igualmente eficazes no tratamento agudo de SGB em adultos (Nível A).

2 –  Imuneglobulina EV é efetiva e deve ser indicada no tratamento a longo prazo em adultos com CIDP (Nível A).

3 – Imuneglobulina EV é provavelmente efetiva e pode ser indicada no tratamento de miastenia gravis moderada a severa, e de neuropatia motora multifocal (Nível B).

4 – Imuneglobulina EV é possivelmente efetiva e pode ser indicada em dermatomiosite ou síndrome miastênica (Eaton-Lambert) refratários em adultos  (Nível C).

5 – Não há evidência suficiente para indicar ou preterir / contra-indicar o uso de IgEV em: SGB em crianças, neuropatia por paraproteinemias, miosite por corpos de inclusão, polimiosite, radiculoplexopatia diabética, Síndrome de Miller Fisher ou no tratamento rotineiro de síndrome pós-pólio (Nível U).

6 – Sobre o uso de CE, o recente guideline sobre o uso de IgEV fala que, até 2009, havia apenas um estudo classe I, que comparou IgEV com IgEV + metilprednisolona. Não houve diferenças entre os grupos avaliados (melhor desfecho funcional, 56% vs 68%, grupos IgEV vs IGEV/CE, respectivamente, OR 1.68, 95% CI: 0.78-2.88, p= 0.06), embora tenha havido leve tendência para melhor desfecho no grupo com CE…

Sobre o uso de CE isolado –> não há referências na recente diretriz.

Palavras da Academia Americana de Neurologia. Link abaixo, acesso livre ao paper na Internet.

LINK

Evidence-based guideline: Intravenous immunoglobulin in the treatment of neuromuscular disorders. Report of the Therapeutics and Technology Assessment Subcommittee of the American Academy of Neurology.

Link da clínica Mayo, com textos direcionados aos pacientes, texto trazido pelos familiares do meu caso. Vejam como os nossos parentes e pacientes estão ficando bem refinados..

E você?! Faz ou não faz IgEV? Costuma usar CE? Qual sua experiência? Deixem seus comments!!!!

Uso clínico de PET com Florbetapir para avaliação de declínio cognitivo

Por Maramélia Miranda

A agência de regulação americana Food and Drug Administration (FDA) aprovou recentemente (Abril 2012) o agente Florbetapir F18 para o uso em estudos com PET (tomografia por emissão de positrons), na detecção da carga de beta-amilóide cerebral em pacientes com declínio cognitivo, auxiliando o diagnóstico clínico de demência por Doença de Alzheimer (DA).

O Florbetapir é um radiofármaco que tem a capacidade de se ligar aos agregados de amilóide no cérebro, e através das imagens geradas no PET scan, há uma quantificação da densidade de placas de B-amilóide. Trata-se, portanto, de uma nova modalidade de neuroimagem em Medicina Nuclear. Nos Estados Unidos, o radiofármaco começou a ser distribuído pela indústria farmacêutica em Julho de 2012. Começam a aparecer, agora, os primeiros centros que estão iniciando suas atividades com este novo método na prática clínica.

O achado de um PET negativo para Florbetapir indica a ausência ou pequenas quantidades de placas neuríticas de beta-amilóide, levando ao raciocínio de uma provável causa não-Alzheimer para o declínio cognitivo do paciente, naquele momento da aquisição das imagens. Já testes de PET positivos demonstram maiores cargas de placas de beta-amilóide, que podem ser observadas em idosos com cognição normal, em fases pré-clínicas de uma demência por DA, por exemplo, ou em outras condições neurológicas, incluindo a própria DA sintomática.

Estudos com PET-Florbetapir (Amyvid) em dois casos diferentes: o primeiro negativo para detecção de amilóide; o segundo positivo.

Lembrar: nenhum exame complementar é perfeito. Portanto, há certas limitações, como o diagnóstico diferencial com outras condições que podem ter o PET com Florbetapir-positivo, e a ausência de evidências sobre se o novo método pode ser um preditor de desenvolvimento de demência ou outras condições, ou ferramenta para monitorar resposta aos tratamentos.

Uma boa e crítica leitura sobre este tema é apresentada na edição mais recente da NEJM (abaixo).

LINKS

Yang et al. Perspectives: Brain Amyloid Imaging — FDA Approval of Florbetapir F18 Injection. NEJM, Sept 6 2012.

Clark et al. Use of florbetapir-PET for imaging beta-amyloid pathology. JAMA Jan 19 2011.

Foto: University of Tennessee, Knoxville, TN

A roda da vida. A roda da ciência…

Por Maramélia Miranda

Ontem, no congresso europeu de Cardiologia (ESC 2012), foram apresentados os resultados do trial IABP SHOCK II, trabalho prospectivo conduzido para avaliar o impacto clínico do uso de balão intra-aórtico em IAM com choque cardiogênico… E vejam só: resultados supreendentemente semelhantes nos grupos tratados com e sem o BIAo!!! Mortalidade em 30 dias de 39,7 vs 41,3% para os pacientes tratados com e sem balão… Desfechos secundários todos semelhantes… O trabalho foi publicado online na NEJM, com editorial (óbvio!), discutindo seus resultados e a mudança que certamente fará no manejo dos casos de IAM…

A pergunta que vem à tona: o que fazer com anos e anos de prática clínica usando BIAo nos casos de IAM com choque cardiogênico…!!!!??? É certo que as diretrizes atuais apontavam esta prática com base em estudos de registro, nenhum trial prospectivo, randomizado e controlado…

Nestas horas, fico me perguntando: será a ciência como a moda? Vai calça pantalona, vem calça pantalona; vai cores neon, volta o reinado neon… As tendências vem e vão num ciclo, como a roda da vida…? Há alguns meses atrás, ressuscitaram o ácido tranexâmico endovenoso na terapia de fase aguda de hemorragia meníngea, em dois guidelines sobre este tema, e “jogaram fora” a fenitoína para a prevenção de crises convulsivas nestes pacientes. Até hoje os neurocirurgiões me xingam quando digo que a diretriz recente não recomenda o uso de fenitoína em AVCH e HSA, e eles querem prescrever o Hidantal de qualquer jeito!

Até 4 anos atrás, se pensava que endarterectomia era pior em pacientes  “de alto risco” (idosos, múltiplos fatores de risco cardiovasculares, coronariopatas, resultados do SAPHIRE, etc…), e este grupo de pacientes ganhavam a preferência por revascularização com angioplastia e stents carotídeos. Veio o CREST, e toda esta ideia lógica e bem razoável das nossas experiências,  dos estudos de registros e séries de casos publicados até então, foi tudo por água abaixo, ressuscitando novamente as endarterectomias… Quem ia imaginar, antes da publicação do CREST, que o paciente mais idoso iria melhor com endarterectomia do que com o procedimento endovascular??? Foi um resultado totalmente surpreendente!

Com o forame oval patente (FOP), a mesma coisa: neurologistas e cardiologistas americanos cansaram de indicar, desde o começo da década de 2000, o fechamento percutâneo de FOP para os todos os casos de AVCi criptogênico com FOP diagnosticado… Até vir a evidência de que o resultado em relação às recorrências com o tratamento clínico é semelhante ao percutâneo. Doença aterosclerótica intracraniana? Outra supresa: o SAMPPRIS respondeu a questão do uso dos stents intracranianos com a sua própria interrupção de recrutamento, num trial financiado pelo NIH… (há quem critique o estudo, o stent utilizado, etc, etc, etc…). O fato é que a única evidência que temos é de que o tratamento médico, até o momento, demonstrou ser superior em doença atero intracraniana.

Magnésio na HSA e vasoespasmo: mais uma das nossas neuro-decepções dos últimos anos… Nada de diferença.

Ou seja:

1 – A ciência é uma roda, uma gangorra, uma montanha russa, assim como as nossas vidas: ela gira, vai, volta, sobe e desce, e estamos aqui tentando fazer com que caminhemos sempre ao lado, buscando a melhor prática médica possível.

2 – Nenhuma verdade é para sempre.

3 – Sempre duvide de opiniões e impressões clínicas. Matemática e estatística, na maioria das vezes (se não for manipulada), funciona.

4 – Estou ficando velha. Tudo o que contei acima, vivenciei nestes últimos 10 anos… (fora o que não lembrei de mencionar).