PET com amilóide x Biomarcadores no LCR: Quem ganhou no diagnóstico de DA????

Publicado ASAP em 30 de setembro, este artigo comparou os dois métodos, biomarcadores no LCR e a imagem do PET com amilóide, no diagnóstico de DA precoce, em população com declínio cognitivo leve que desenvolveu a doença.

Depois adiciono mais informações do paper. O artigo está com acesso aberto na homepage da Neurology.

Por enquanto fiquem com a conclusão do abstract.

Conclusions: Amyloid PET and CSF biomarkers can identify early AD with high accuracy. There were no differences between the best CSF and PET measures and no improvement when combining them. Regional PET measures were not better than assessing the global Ab deposition. The results were replicated in an independent cohort using another CSF assay and PET tracer. The choice between CSF and amyloid PET biomarkers for identifying early AD can be based on availability, costs, and doctor/patient preferences since both have equally high diagnostic accuracy.

LINK

Palmqvist et al. Detailed comparison of amyloid PET and CSF biomarkers for identifying early Alzheimer disease. Neurology 2015.

Fonte da imagem: www.mayoclinic.org

Escore ASPECTS para AVC isquêmico agudo

Vejam só.

Chega um caso de suspeita de AVC no hospital. Tem uma hora do início dos sintomas – território anterior – afasia grave e paresia direita leve; o emergencista pede a TC de crânio de urgência, e sai um resultado normal. Portanto, provável AVCI, e elegível para trombólise.

O neuro é acionado (à distância, realidade da maioria dos serviços hospitalares do país, onde não há neurologista de plantão).

No caminho para o hospital, o neuro liga para o Radiologista do hospital e temos o seguinte diálogo:

“E aí?! A TC do paciente xxx tem alguma coisa?” Sinais precoces de infarto extenso? Hiperdensidade da cerebral média? Hipodensidade de cápsula, insular?”

“Não. Está normal.”

“Então é um ASPECTS de 10? Porque eu já vou ligar para o neurorradio pra ir passando o caso…”

“Que?! ASPECTS??”

Pois bem.

Sabemos que isso é uma (triste) realidade. Tem hora que a gente pergunta o NIH, e não sabem falar. E agora, considerando as novas recomendações de AVCI agudo, teremos também que perguntar o ASPECTS, e os radios, neuros, todos temos que saber direitinho como é isso. Escore ASPECTS. Este escore entra na decisão clínica de mandar ou não um paciente para trombectomia. Em casos de AVCI com tempo < 6h dos sintomas e circulação anterior.

Escore ASPECTS

Varia de zero a 10, sendo 10 o escore “normal” – ou seja, nenhuma hipodensidade nas regiões determinadas para graduar o ASPECTS. E zero, o pior escore deles, ou seja, hipodensidade em todas as “regiões” da TC avaliadas.

Regiões (total de 10 regiões):

C: Caudado

L: Lentiforme

I: Ínsula

IC: Cápsula interna

M1 a 6: Cerebral média em cortes mais inferior (M1-3) e superior (M4-6)

>>> Para cada região com integridade / normalidade do parênquima, visualizada na TC da fase aguda, conta-se um ponto. Se há hipodensidade na região, perde-se, portanto, o ponto naquela região…

>>> Portanto, ASPECTS de 7 = houve 3 regiões com alguma hipodensidade; ASPECTS de 6, houve 4 regiões com hipodensidade; ASPECTS de 9, este caso teve apenas um local com hipodensidade.

Ações

É preciso divulgar, disseminar, implantar este escore, gravar nas nossas cabecinhas este escore, e sobretudo tentar implementar este tipo de leitura em laudos estruturados, pré-determinados, nos serviços de emergência hospitalares do país, principalmente quando se está atendendo um AVC isquêmico com menos de 6 horas dos sintomas. Onde um escore ruim contraindica a realização de terapia de reperfusão…

Recado para que os neuros disseminem esta informação nos seus serviços.

Resveratrol para Alzheimer: Funciona!?

Um estudo multicêntrico americano, randomizado e controlado, duplo-cego, de fase 2 (desenhado para demonstrar segurança da terapia ativa), foi publicado recentemente na revista Neurology, levantando mais uma vez a bola do resveratrol, molécula presente em alguns alimentos e no vinho tinto (oba!), na terapia de demências como a demência por Doença de Alzheimer (DA).

Atenção, pessoal. O paper está com acesso aberto na revista!!! Corram e baixem de lá…

Estudo

Turner e col avaliaram 119 pacientes com o diagnóstico de provável demência por DA, em uso regular de anticolinesteráricos ou memantina,  com MME entre 14-26, e escore de Hachinsky < 5; o estudo constou de uso de placebo ou resveratrol 500 mg em doses escalonadas, com incrementos a cada 13 semanas chegando à dose final de 1000mg duas vezes ao dia. Os pacientes estudados foram avaliados com estudo de ressonância magnética e dosagens laboratoriais dos biomarcadores no sangue e liquor cefalorraquiano (LCR).

Outras causas de demência foram excluídas da amostra, bem como pacientes com microhemorragias na RM e diabetes em tratamento. Os desfechos primários medidos foram a volumetria do cérebro total do hipocampo e córtex etorrinal, e mudanças da volumetria dos ventrículos, todos através do estudo de RM; e trajetória dos níveis plasmáticos de Ab40 e Ab42, e dos níveis no LCR de Ab40, Ab42, Tau e fosfo-tau 181.

Resultados

Eventos adversos ocorreram de forma semelhante nos grupos ativo e placebo (355 vs 302 eventos adversos, respectivamente). Os efeitos adversos mais observados foram diarréia, náusea e perda de peso.

O grupo placebo ganhou mais peso durante o estudo (follow-up de 1 ano), enquanto o grupo ativo do estudo perdeu peso (0.92kg, +4.9 kg (média e DP, p = 0.038)… Ohhhh!!!!!!! (gostei!). Resultado dentro do esperado para o efeito sobre o peso já previamente observado em outros estudos com resveratrol.

Os níveis liquóricos e séricos de Ab40 Ab40 tiveram um declínio mais rápido no grupo placebo. Entretanto, a terapia com resveratrol correlacionou-se com maior perda volumétrica cerebral (ops!!!!! não gostei…), achado cuja etiologia ainda não está muito clara, mas que não teve correlação com declínio cognitivo.

O estudo, que não tem poder estatístico para fazer comparações de desfechos clínicos, mostrou que não houve diferenças nos escores de Mini-Mental,  “Alzheimer’s Disease Assessment Scale–cognitive” (ADAScog), “Clinical Dementia Rating–sum of boxes” (CDR-SOB) e inventário neuropsiquiátrico (“Neuropsychiatric Inventory” – NPI. Mas na escala “Activities of Daily Living Scale” (ADCS-ADL) o declínio foi menor no grupo ativo (p=0.03).

Conclusões

Resumindo a ópera:

— Resveratrol foi seguro e bem tolerado; e penetrou a barreira hematoencefálica para causar seus efeitos no SNC; 🙂

— Resveratrol levou a maior perda de peso;  🙂  🙂  🙂

— Resveratrol aumentou a velocidade de perda volumétrica cerebral;  🙁

— resveratrol mudou a trajetória dos biomarcadores de DA, no sentido de reduzir a queda da proteína beta amilóide no sangue e LCR ao longo de 12 meses de tratamento.  🙂  🙂  🙂

Retirado do paper original:::

“Conclusions: Resveratrol was safe and well-tolerated. Resveratrol and its major metabolites penetrated the blood–brain barrier to have CNS effects. Further studies are required to interpret the biomarker changes associated with resveratrol treatment. Classification of evidence: This study provides Class II evidence that for patients with AD resveratrol is safe, well-tolerated, and alters some AD biomarker trajectories. The study is rated Class II because more than 2 primary outcomes were designated.”

LINKS

Turner et al. A randomized, double-blind, placebo-controlled trial of resveratrol for Alzheimer disease. Neurology 2015.

Ma et al. Resveratrol as a therapeutic agent for Alzheimer’s disease. Biomed Res Int 2014.

Leituras. Músicas da semana.

Guia prático… Se você… Por acaso… Pegar por aí, algum dia desses, uma paralisia isolada de nervo hipoglosso… Guia de anatomia-radiológica AQUI.

Stowell & Akerman. Better Value in Health Care Requires Focusing on Outcomes. Da HBR.

Meyer C. Measuring Quality of Care for the Sickest Patients. Idem. Um papo rápido sobre métrica em paliação.

Albers et al. Relationships Between Imaging Assessments and Outcomes in Solitaire With the Intention for Thrombectomy as Primary Endovascular Treatment for Acute Ischemic Stroke. Stroke 2015.

Recession’s sharp bite: The shrinking of a once-vibrant economy is shocking ordinary folk as well as number-crunchers. Da The Economist. Leitura da revista inglesa sobre nossa crise.

E pra fechar a semana, digo, pra começar bem o final de semana ensolarado e caloroso que vem por aí, um Jazzista dos bons. Pat Metheny no seu último premiado álbum, e tocando com Tom Jobim na década de 90, no Carnegie Hall…

Omega 3 or No-Omega 3: That is the question…

Então…

Será que minhas capsulinhas de Omega 3 tomadas religiosamente todos os dias estão sendo em vão?!?!?!?!

JAMA publicou na semana passada uma sub-análise de um estudo sobre degeneração macular, o “Age-Related Eye Disease Study 2” – AREDS2, que testou placebo versus suplementação com omega 3, algumas vitaminas e luteína / zeaxantina, em desenho multifatorial para o tratamento específico da doença oftalmológica. De quebra, aproveitando o “gancho” do trial, os pesquisadores pegaram o grupo de pacientes que usaram Omega 3 e os controles, e aplicaram testes cognitivos via telefone, a cada 2 anos, em mais de 3700 pacientes, num total de 5 anos de follow-up.

Não houve diferenças nos testes neuropsicológicos aplicados entre os grupos placebo e Omega 3, no baseline e após o follow-up…

E agora???? Será que adianta dar Omega 3 para prevenção de declínio cognitivo???

LINKS

Chew et al. Effect of Omega-3 Fatty Acids, Lutein/Zeaxanthin, or Other Nutrient Supplementation on Cognitive Function: The AREDS2 Randomized Clinical Trial. JAMA 2015.

Novas recomendações da ILAE e FDA sobre uso de valproato em mulheres e na gravidez

Por Nicolas Amui, Felipe Barbosa ** e Maramelia Miranda

Notícia recente, artigo da ILAE publicado na Epilepsia, em Maio de 2015. Apresentada pela Profa. Elza Marcia. Nossa fera em Epilepsia.

Depois disso, a agência Food and Drug Administration, em junho de 2015, usando informações desta recomendação da ILAE, e de estudos publicados sobre o uso de valproato em grávidas e possíveis efeitos adversos nas crianças cujas mães usaram a droga na gravidez, liberou a comunicação sobre a segurança da prescrição deste importante droga, usada em Neurologia para diversas condições, como a profilaxia da migrânea, em epilepsia, transtornos bipolares e de humor em geral. A categoria da droga para uso em migrânea, anteriormente classificada como “D” (potencial benefício da droga em grávidas pode ser aceitável a despeito dos riscos), passou a ser tipo “X”, ou seja, o risco de seu uso em gravidez claramente suplanta qualquer possível benefício.

Em relação à prescrição do valproato em epilepsia e transtorno bipolar, apenas haverá justificativa para a sua continuidade quando outros produtos não foram efetivos.  Para este uso (epilepsia e bipolaridade), permanecerá como categoria D. Para mulheres em idade fértil, a recomendação é tentar evitar esta droga. Veja exatamente o que o FDA escreveu em seu “release”:

“With regard to women of childbearing age who are not pregnant, valproate should not be taken for any condition unless the drug is essential to the management of the woman’s medical condition. All non-pregnant women of childbearing age taking valproate products should use effective birth control.”

Controverso, não?!

LINKS

FDA Drug Safety Communication: Valproate Anti-seizure Products Contraindicated for Migraine Prevention in Pregnant Women due to Decreased IQ Scores in Exposed Children. 

Tomson et al. Valproate in the treatment of epilepsy in girls and women of childbearing potential. Epilepsia 2015. 

** Nicolas Amui e Felipe Barbosa são residentes da Neurologia na UNIFESP/EPM.

Leituras da semana. E um solo do Eric Johnson

Por Regina Nuzzo. Scientific method: Statistical errors: P values, the ‘gold standard’ of statistical validity, are not as reliable as many scientists assume. Nature 2015.

Do NY Times, na sessão Cooking. Things You Should Make, Not Buy. São 20 receitas que você deveria fazer em casa, pois são muito melhores do tipo “hand-made” do que as industrializadas.

Denúncia completa da PGR contra Eduardo Cunha e Solange Almeida, entregue ontem ao STF. 85 folhas de bandidagem. Para os curiosos em saber como se recebe propina e como se lava 5 milhões de dólares usando empresas, laranjas e dezenas de contas no exterior.

Hypoglossal nerve palsy: A segmental aproach. Um artigo antigo, de 1994, escrito por Elisabeth Thompson e Wendy Smoker, sobre a anatomia deste nervo ilustrado com imagens de tomos e ressonâncias, com muitas correlações anatômico-neurorradiológicas. Muito bom pra estudar.

E pra terminar a semana, Cliffs of Dover, do Eric Johnson.

Cliffs of Dover (versão ao vivo)- Eric Johnson

Cliffs of Dover (versão em Estudio) – Eric Johnson

Aneurismas intracranianos não rotos: Mais um escore publicado

Saiu hoje na Neurology. Acesso livre, PDF aberto. Comecei a ler e ficar preocupada com minha burrice.

Que-escore-é-este?!

Li, reli, trili, tetra-li.

E não entendi (quase) nada. Parece ser um escore feito por um consenso de experts, escala que contém duas colunas, 49 (sim, 49!) variáveis, números à direita, esquerda, e um número final… A favor ou contra o tratamento do aneurisma cerebral.

Bem, escore é bom, eu gosto, confesso, nos ajuda em algumas doenças, ajuda em pesquisas, em seguimento clínico, mas um bom escore tem que ser mais, digamos, “simples”… Senão não vai pegar.

Sabem a teoria do Baby Steps? Passinhos de bebê? Em tecnologia? Isso também vale pra estas coisas. Que o diga a velha e boa escala de coma de Glasgow, uma das mais difundidas e, salvo engano, a mais aplicada em Neurologia no mundo.

Curiosos?

VEJAM O ESCORE AQUI. 

serra-alckmin-susto-humor-politico

Jesus Christ!!!! Que escore é esse?!

 

LINK

Etminan et al. The unruptured intracranial aneurysm treatment score A multidisciplinary consensus. Neurology 2015.