NMO no Brasil e uma provocação

Nunca é demais ler sobre NMO.

Muito interessante o artigo original da Dra. Maria Cristina Del Negro, do Sarah de BSB, que descreve sua série clínica de NMO na revista Arquivos de Neuropsiquiatria deste mês, e inclui no seu artigo uma mini revisão, de relance (última tabela do artigo), com todos os casos publicados pelos demais autores especialistas da área no nosso país, de 2002 até hoje. A tabela é um retrato da doença e a evolução de como se conseguiu avançar nela (número de casos, investigação, percentual de sorologia disponível, etc…) aqui no país.

E tão interessante quanto o artigo original é o editorial, do Dr. Tarso Adoni, que lança a chama de se tentar criar um registro nacional, além de outras coisitas “mas”.

A despeito das dificuldades que enfrentamos, onde temos que, como médicos brasileiros, trabalhar em 3 ou mais lugares, para ganhar decentemente, pagar nossas contas, e ao mesmo tempo, ensinar, fazer pesquisa, estudar, atuar em hospitais públicos sucateados, sem verba adequada para cuidar dos doentes, sem verba em pesquisas… Sem remuneração adequada para os residentes, fellows e pesquisadores…

É preciso ter união, esquecer o glamour da academia, o orgulho, o medo de se perder, tentar esquecer os entraves que temos, tentar vencer estes obstáculos, e pensar que juntos, temos mais força. Isso vale para todas todas todas as sub-áreas da Neurologia. Não é fácil ter motivação diante do cenário que nos cerca. Mas seria interessante juntar as mentes, como dos neuros, dos professores, pegar o pessoal da TI, programadores, pessoas inovadoras, aqueles que puxam os pensadores-sonhadores para o chão – os chamados executores, pegar os empreendedores, e os filantropos-investidores (quem sabe?! acho que temos no nosso país o pessoal que tem a grana pra colocar nisso)… E tentar fazer a coisa acontecer.

Termino minha auto-terapia do dia, desabafando e filosofando a minha tristeza sobre toda essa situação acima descrita (ahhhh se houvesse fluoxetina ou o tal do Brintellix na veia…)… Bem, termino com uma frase incrível do Dr. Tarso Adoni no seu editorial:

“We must realize that now it is time to take a step further, moving beyond papers that repeat and confirm to exhaustion the clinical and epidemiological data of <NMOSD> “.

Essa frase é um código. Que tal escrevermos esse código???? Alguém aí disposto??????

Metformina: Vilã ou mocinha??????

Assim fica difícil. Depois de visto o abstract que tinha saído ano passado (paper ainda não publicado), e ter ficado bem feliz com os meus casos de DM tipo 2 usando metformina, na ilusão de estar protegendo seus cerebrosinhos de DA e Parkinson… Aí vem essa.

Okey… Primeiro… Em 2016…

Na conferência americana de Diabetes, um estudo com pacientes veteranos americanos mostrou que o uso de metformina foi protetor para aparecimento de DA, Parkinson e transtorno cognitivo leve, e o efeito foi tão maior quanto maior o tempo de uso da droga…

Vejam os números na coorte estudada de mais de 6 mil pacientes, lembrando que foi estudo retrospectivo:

” (…)  the rates of neurodegenerative disease by cohort were 2.08 cases per 100 person-years for those who received no metformin treatment, 2.47 per 100 person-years for those treated with metformin for less than 1 year, 1.61 per 100 person-years for those treated 1-2 years, 1.30 per 100 person-years for those treated 2-4 years, and 0.49 person-years for those treated 4 years or more. The longer patients took metformin, the less likely they were to develop neurodegenerative disease.”

Agora…

Agora?! Ferrou mesmo!!! O estudo atual incluiu 9300 casos de diabéticos tipo 2, acompanhados por 12 anos. Problema: população de Taiwan. Outro problema: não explicitaram o controle do DM na população. E outro que o paper também não foi publicado. Mas o fato é que a pesquisadora principal encontrou um risco de DP e DA mais do que o dobro nos que usavam metformina…

 

LINKS

Qian S et al. The Effect of Metformin Exposure on Neurodegenerative Disease among Elder Adult Veterans with Diabetes Mellitus. ADA 2016.

Brauser D. Metformin Use Linked to Increased Dementia, Parkinson’s Risk in Patients With Diabetes. AD/PD 2017. Fonte: Medscape 2016.

DAWN Trial: Interrompido precocemente!!!

A Stryker, produtora do stentriever Trevo, anunciou a interrupção do DAWN.

Ou foi positivo demais, ou foi negativo. aposto na primeira hipótese.

Vamos ver no que deu, no congresso europeu, daqui a 2 meses, em Praga.

O que é o DAWN Trial?

Estudo multicêntrico e internacional com o intuito de comparar o tratamento com trombectomia (usando device Trevo) + terapia médica vs terapia médica isolada, em casos de AVCi com oclusão arterial aguda e tempo de início dos sintomas de 6 a 24h (incluídos aí pacientes do tipo wake-up stroke ou pacientes que chegavam tardiamente à emergência).

Opa! Olha o SOCRATES aí mostrando o ar da graça…

Ho ho ho… Vejam só o que os pesquisadores do SOCRATES estavam guardando na manga… Depois de um estudo negativo, aquele discursinho insosso, deprimido, sem nenhuma empolgação, que foi a apresentação deles no congresso americano do ano passado, e, claro, guardadas as devidas proporções por serem dados de uma análise post-hoc, até que não é pra se jogar fora o que foi publicado na Lancet este mês.

Resultado de imagem para athero catorid

Análise de subgrupo de pacientes do estudo SOCRATES, que comparou aspirina e ticagrelor nos pacientes com AVCi, pegaram os que tinham aterosclerose carotídea ipsilateral ao AVC índice, e encontraram o grupo com Ticagrelor com menos eventos de desfechos combinados do que o grupo tratado com aspirina (6,7 vs 9,6%)… HR 0·68 [95% CI 0·53–0·88]; p=0·003.

Bem. Fishing or not fishing, it is a number!!! Acho que devemos considerar.

E vocês? O que acham??? Ainda não li o artigo. Vamos atrás disso.

LINKS

Amarenco et al. Efficacy and safety of ticagrelor versus aspirin in acute stroke or transient ischaemic attack of atherosclerotic origin: a subgroup analysis of SOCRATES, a randomised, double-blind, controlled trial. Lancet 2017.

CLEAR III: Publicado (finalmente)!

Estudo

Anos e anos de trabalho duro. Ufa. Agora foi. Estes dados foram apresentados pelo Prof. Hanley no ISC do ano passado, mas os slides não ficaram disponíveis no site da AHA, e foi um dos poucos trabalhos apresentados que não teve seu paper publicado na sequência.

n=500, pacientes com hematoma intracraniano < 30ml, com hemorragia intraventricular com obstrução dos 3o. e 4o. ventrículos, testando a terapia de colocação de DVE versus colocação de DVE + infusão de rTPA intraventricular.

A dose de rTPA usada foi 1mg de rTPA a cada 8/8h, pelo cateter de DVE.

Resultados

Desfecho primário = mRS (Rankin) de 0 a 3.

Maioria dos pacientes (57-60%) foram de hematomas talâmicos com inundação ventricular. 8 a 11% eram hemorragias intraventriculares puras. 27% dos casos foram tratados com a colocação de dois cateteres (um em cada ventrículo), para auxiliar a monitoração da PIC e ao mesmo tempo, colocar o trombolítico em um deles. O cateter no ventrículo pior era usado para adminsitrar a droga, e o cateter no ventrículo mais limpo era usado para monitorar a PIC e drenar o líquor.

O grupo ativo, tratado com alteplase, receberam média de 5 doses, com duração de 1 a 2 dias de terapia trombolítica intraventricular, até a abertura / ventrículos limpos, radiologicamente (pela TC de controle).

Em relação à melhora clínica, o estudo foi negativo, com o detalhe que a mortalidade em 6m foi de 30 vs 19% a favor dos pacientes que receberam trombolítico. Neste grupo houve um desvio dos casos que não morreram, para o Rankin 5.

No final, é um estudo importante para mostrar que o rTPA intraventricular é seguro, mas a técnica precisa ser apurada e a seleção dos pacientes deve ser repensada. Acho que a história do CLEAR não acaba aqui…

LINKS

Hanley et al. Thrombolytic removal of intraventricular haemorrhage in treatment of severe stroke: results of the randomised, multicentre, multiregion, placebo-controlled CLEAR III trial. Lancet 2017.

Rabinstein A. Intracerebral haemorrhage: no good treatment but treatment helps. Lancet 2017. Editorial.

Alvos de Pressão Arterial: ACCORD, e agora SPRINT Trials

Guia rápido para alvos de pressão arterial. Comentário na JAMA, com links dos principais artigos.

Blood-Pressure-Target-2017

LINKS

Chobanian A. Hypertension in 2017—What Is the Right Target? JAMA 2017

Cushman et al.  Effects of intensive blood-pressure control in type 2 diabetes mellitus. N Engl J Med. 2010.

Williamson  et al.  Intensive vs standard blood pressure control and cardiovascular disease outcomes in adults aged ≥75 years. JAMA 2016.

Wright et al.  A randomized trial of intensive vs standard blood-pressure control. N Engl J Med 2015.

Nova classificação de crises epilépticas da ILAE

A última classificação da ILAE para as crises epiléticas era de 1981!!!! Vejam só, antes mesmo da década dos Milleniuns!!!!

ILAELogoUpdate-2012_WEB

33 anos depois, a ILAE Classification Task Force agora aprova um novo sistema de classificação, ainda não publicado, mas apresentado no recente congresso americano de Epilepsia 2016, em Houston, USA.

Principais mudanças

O sistema novo categoriza basicamente as crises entre as crises com e sem consciência. Este item – consciência, é bastante considerado no novo sistema proposto.

Crises parciais simples –> pela novo sistema serão chamadas de  “crise focal consciente”  – “focal aware”.

Crises parciais complexas –> “crise focal com consciência alterada”.

Crises com preservação da consciência do tipo mioclônicas, atônicas, focais clônicas e focais tônicas –> agora são classificadas como focais, e não generalizadas, como na classificação antiga.

Definição de Epilepsia

Anteriormente, a definição era da presença de 2 ou mais crises epilépticas com intervalos entre as crises de no mínimo 24 horas. A revisão apresentada agora define Epilepsia como pelo menos uma crise com a possibilidade alta de recorrência desta, de forma a encorajar o diagnóstico precoce e seu devido tratamento.

A definição revisada da ILAE de Epilepsia, publicada há 2 anos, adotava o critério de que a doença se “resolve” se o paciente fica livre de crises por pelo menos 10 anos, com os últimos 5 anos sem crises e sem agentes antiepilépticos.

LINKS

American Epilepsy Society (AES) 2016 Annual Meeting. “Symposium: The New Definition and Classification of Epilepsy.” Presented December 2, 2016.

P Anderson. New ILAE Classification System for Seizures. Medscape Neurology 2016.