Garth Brooks – When you come back to me again
Por Maramélia Miranda
Primeiro disclaimer: É um trabalho prepublicado, estudo ainda não revisado por pares. Mas os dados, os resultados foram considerados bem relevantes, mesmo com uma amostra bem pequena de sujeitos estudados, que seus autores resolveram publicizar abertamente para toda a comunidade da Internet e científica.
Foram analisados 3 grupos de sujeitos e suas ações: grupo com LLM, grupo com Search Engine e o grupo sem nenhuma ferramenta (Brain-only), categorizado pela ferramenta que cada grupo usou para escrever. Foram feitas três sessões com suas respectivas ferramentas, e numa quarta sessão, os grupos LLM e brain-only trocaram de ferramentas (o LLM ficou sem nada, e o Brain-only usou LLM).
Estudo pequeno, praticamente um pilotinho do que ainda está por vir nesta área de conhecimento. n=54.
Análise feita com EEG, registrando a atividade cerebral e ativações neurais correlatas. O uso de LLM teve um impacto momentâneo positivo aparente no grupo de usuários da ferramenta, mas após 4 meses de uso, conseguiram medir um declínio neste grupo que usou LLM (comparado ao grupo Brain-only), performando pior em escores neurais e linguísticos.
Isso é assustador! Não tem outro adjetivo no qual eu possa pensar…
Me lembra o hype inicial com tecnologia, jogos, computação, telas, programas, celular na mão, e depois de algum tempo, tudo indo ladeira abaixo em milhões de coisas ruins de tudo isso, desde uso excessivo de telas, adição, falha de socialização, aumento de adoecimento por saúde mental, até todo resto, que culmina hoje com praticamente o banimento de telas para bebês, crianças e adolescentes.
Conclusão dos autores:“We hope this study serves as a preliminary guide to understanding the cognitive and practical impacts of AI on learning environment.”
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Chow A.ChatGPT May Be Eroding Critical Thinking Skills, According to a New MIT Study. Artigo sobre o estudo na Revista Time.
Project YOURBRAIN ON CHATGPT. In: https://www.media.mit.edu/publications/your-brain-on-chatgpt/
O mundo dá voltas.
A ciência… Também.
Os mesmos pesquisadores neurologistas, neurointervencionistas e cirurgiões vasculares que enterraram a angioplastia carotídea em doença da carótida cervical, no primeiro CREST, 15 anos atrás, favorecendo a endarterectomia para a maioria dos casos de atero carotídea, conseguiram operacionalizar um estudo super difícil de se fazer, que durou longos 11 anos para ser finalmente terminado, apresentado e publicado com grande alarde, na última semana, durante o congresso da SVNI, em Orlando, EUA, com publicação simultânea na NEJM.
O CREST-2 conseguiu incluir 2400 pacientes com aterosclerose carotídea assintomática, comparando tratamento médico versus revascularizar as estenoses de carótidas nos casos sem AVCi ou AIT no território da artéria estenosada há pelo menos 6 meses.
Estudo: financiamento pelo NIH (National Institute of Health americano). Nada de indústria na jogada… 155 centros americanos, no Canadá, Austrália e Israel.
Critérios para entrar no trial: >35 anos, presença de estenose carotídea assintomática com >70% de estenose (critérios por CTA ou MRA ou US carótidas).
Dois Braços de tratamento – braço de stenting e de endarterectomia: 4 grupos ativos de tratamento – TMI (tratamento médico intensivo) sozinho vs TMI + angioplastia (CAS), e outro com TMI + endarterectomia (CEA) vs TMI sozinho.
Desfecho primário: qualquer AVC ou morte nos primeiros 44 dias (período perioprocedimento), e em follow-up de 4 anos associando-se o evento de AVC ipsilateral isquêmico até 4 anos (pós-período periprocedimento).
Resultados
No braço de CEA, o desfecho primário foi menor no grupo CEA, mas sem significância estatística –> 3.7% vs 5.3% com p =0.24%. O RR de ter evento foi de 1,43 x maior nos pctes tratados clínicamente (95% CI 0.78-2.72).
Nos primeiros 44d após a randomização, houve 3 AVCs nos casos tratados clinicamente, e 9 AVCs e uma morte nos submetidos a CEA. Após o dia 44, no grupo médico houve 23 AVCi ipsilateral (1,3% de taxa anual de evento (95%CI, 0.9-2,0), e no grupo CES, 10 AVCi ipsilaterais (taxa anual de 0,5% [95%|CI 0,3-1.0), pontuando um RR de 2.38.
No braço do stent (CAS), o desfecho primário foi de 6% no grupo clínico e 2,8% no grupo CAS, com RR absoluto menor em 3,2% favorável à CAS, p=0,02. O RR de ter evento foi de 2,13 x maior nos pctes tratados clínicamente (95% CI 1.15-4.39).
Nos primeiros 44d após a randomização, houve zero AVC ou morte nos tratados clinicamente, e 7 AVCs e uma morte nos submetidos a CAS. Após o dia 44, no grupo médico houve 28 AVCi ipsilateral (1,7% de taxa anual de evento (95%CI, 1,1-2,4), e no grupo CAS, 7 AVCi ipsilaterais (taxa anual de 0,4% [95%|CI 0,2-0,9), pontuando um RR de 4,07.
Tabeilinha dos desfechos. Vejam…
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Brott et al. Medical Management and Revascularization for Asymptomatic Carotid Stenosis. NEJM 2025.
Brown & Bonati. Managing Asymptomatic Carotid Stenosis. Editorial. NEJM 2025.
Barcelona, 22 out 2025.
Yaghi e colaboradores apresentaram hoje em Barcelona, e publicaram concomitantemente na revista Stroke, uma nova proposta para classificar o AVC isquêmico, que se vale fundamentalmente da premissa de uma atualização necessária dos atuais sistemas disponíveis.
Na verdade, querem desbancar o velhinho TOAST (Trial of ORG 10172 in Acute Stroke Treatment), que data de 1993!
Tudo bem… Vamos lá… Que os sistemas de classificação existentes levam a um grande número de AVCs “criptogênicos”, com etiologia indeterminada, e que nunca foi adicionada a nenhuma destas classificações o conceito ESUS (embolic stroke of undetermined source – AVC embólico de fonte indeterminada). Ou que não tem novos tipos descobertos de AVCi relevantes na nossa prática atual. Vai lá!
A novata ISPS25 sugere uma classificação subcategorizada como definida, provável ou possível, nos diferentes tipos de AVCi por cardioembolismo, aterosclerose de grandes artérias, doença de pequenos vasos ou outras causas determinadas (por exemplo, distúrbios hipercoaguláveis, distúrbios genéticos, câncer ou dissecção). Aqui, já começo a torcer o nariz… Gente… Na boa! QUal a chance de uma classificação subcategorizada em definido, provável e possível vingar!???? … Vou ficar calada… Senão vou morder minha língua!
Segundo, os autores lançam a ideia de primeira “leva” de exames a serem feitos – first pass… Primeira passagem do que, cara pálida!? Ah…
Já comecei a me irritar na segunda página, ali…
Tabela. Proposta de nova classificação para o AVC isquêmico, segundo Yaghi e colaboradores.
| Categoria Principal | Nível de Causalidade | Critérios |
| AVC Cardioembólico | Definido | Trombo intracardíaco. |
| Provável | FA ou flutter atrial (história, detectado por ECG ou por dispositivo dentro de 12 meses com episódio mais longo ≥24 horas), IAMSSST dentro de 4 semanas, FE <30%, endocardite infecciosa ou não infecciosa, FOP com “probabilidade causal de AVC associado a FOP” (PASCAL) provável, tumor cardíaco do lado esquerdo. | |
| Possível | Estenose mitral grave, FA detectada dentro de 12 meses com episódio mais longo <24 horas, FOP com PASCAL possível, aneurisma ventricular esquerdo, não compactação ventricular esquerda. | |
| Aterosclerose de Grandes Artérias (Infartos estritamente no território da artéria afetada) |
Definido | Placa associada a trombo intraluminal. |
| Provável | Estenose de 50% a 99% na artéria correspondente, ateroma aórtico ascendente ≥4 mm, hemorragia intraplaca, realce excêntrico da parede do vaso (para vasos intracranianos). | |
| Possível | Ateroma aórtico ulcerado ou protuberante, placa aterosclerótica ulcerada não estenosante. | |
| Doença Convencional de Pequenos Vasos | Definido | Infarto lacunar E pelo menos um fator de risco para doença de pequenos vasos (ex: hipertensão, diabetes, tabagismo) E evidência de marcadores convencionais de doença de pequenos vasos (ex: infartos lacunares antigos, doença da substância branca moderada a grave, microssangramentos subcorticais). |
| Provável | Infarto lacunar E pelo menos um fator de risco para doença de pequenos vasos E nenhuma evidência de imagem de marcadores de doença de pequenos vasos. | |
| Outras Causas Determinadas | Associado ao câncer (Definido ou Provável) | Câncer ativo com D-dímero ≥2,5 mg/dL, sinal de 3 territórios, endocardite marântica ou tromboembolismo venoso. |
| Associado ao câncer (Possível) | Câncer ativo sem as características acima. | |
| Hipercoagulabilidade | Diagnóstico conhecido ou novo de Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAAF). | |
| Distúrbios genéticos | Infarto lacunar com evidência de CADASIL, CARASIL, COL4A1, doença falciforme (DF) ou doença de Fabry. Infarto não lacunar com evidência de DF ou Fabry. | |
| Vasculopatias não ateroscleróticas | Síndrome de vasoconstrição cerebral reversível, rede da artéria carótida (Carotid rette) (com ou sem trombo), infarto venoso, doença de Moya Moya, vasculite, dissecção aguda ou subaguda da artéria cervical. | |
| Iatrogênico ou uso de drogas | AVC isquêmico dentro de 24 horas de procedimento vascular, cardíaco ou neurocirúrgico, ou teste de drogas positivo para cocaína ou metanfetamina. |
Enfim…
O sistema ISPS25 pretende “atualizar” as classificações já existentes. Tem à sua frente a prática, fácil, baby step TOAST que nunca foi nem de perto ameaçada pelas ASCOD do P. Amarenco, nem pela CCS automatizada do MGH.Até hoje, a TOAST reina absoluta e pleníssima, como nossas amadas residentes da UNIFESP costumam frequentemente adjetivar.
Me incomodou bastante já começar com a subclassificação de ” mecanismos definidos, prováveis e possíveis”. E confesso que também não gostei da coisa de algoritmizar a questão, impondo listinhas pré-fabricadas, pathways pré-concebidas, como se os pacientes fossem todos iguaiszinhos… Não dá certo. Embora eu reconheça – sim… Infelizmente, estamos na era disso, dos algoritmos, pathways e protocolos, da IA certinha e de coisas “medulares”, sem o lento e romântico raciocínio clínico em voga.
E quando colocaram o tal do ESUS 1.0, ESUS 2.0??! E da tal de primeira e segunda “passagem”, pra mim, desandou geral…
Vamos ver no que vai dar. A conferir.
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Yaghi et al. Proposal for the Ischemic Stroke Phenotyping System 2025: ISPS25. Stroke 2025.
Por que saber tudo sobre os antiepilépticos é importante?
Os fármacos antiepilépticos (FAEs) são a base do tratamento da epilepsia e muito importantes no tratamento das crises sintomáticas agudas, atuação frequente de neurologistas, mas sua eficácia e segurança dependem da escolha correta, ajuste e titulação de dose, e a correta compreensão dos mecanismos farmacológicos. Adaptei aqui uma tabela comparativa de drogas antiepilépticas, com doses, mecanismos de ação de antiepilépticos, e indicações específicas para cada tipo de crise, que irão te ajudar a escolher o melhor antiepiléptico para cada diferente situação:
Precisão Terapêutica: Escolher o FAE errado pode não controlar as crises (Ex.: carbamazepina em ausências).
Minimizar Efeitos Adversos: Fenobarbital causa sedação e problemas cognitivos a longo prazo; valproato tem risco hepatotóxico; qual a dose correta de levetiracetam para epilepsia.
Personalização: Epilepsias focais vs. generalizadas exigem abordagens distintas.
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Pinto et al. Practices in the prescription of antiseizure medications: is it time to change? Arq Neuropsiq 2024. Excelente artigo de revisão, bem prático, sobre os antigos e atuais anticrise, comentando a respeito de uso em gestação, efeitos adversos e dicas práticas em comorbidades.
Publicação oficial endorsada pela ABN – Academia Brasineira de Neurologia e Associação Brasileira de Fisioterapia Neurofuncional – ABRAFIN. Inclui recomendações na fase aguda do AVC, atividades e indicadores de qualidade a serem considerados.
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A história de pesticidas… Estudo super recentemente publicado do tipo casos-controle, pegou pacientes com Doença de Parkinson (DP) e controles normais da região de Rochester, durante 25 anos de dados registrados, conduzido por pesquisadores da Brown University e da Mayo Clinic.
Analisando-se 419 casos novos de Parkinson idiopático, e comparando-se com 5113 controles, morar a uma milha de um campo de golfe associou-se a 126% maior chance de desenvolver DP, comparando com pessoas morando a mais de 6 milhas de campo de golfe (OR 2.26; 95% CI, 1.09-4.70). Pessoas morando em áreas com serviço de água próximos a campos de golfe também: OR 1,96 (quase 2x a chance de ter DP). Apesar de não demonstrar causalidade direta por ser um estudo observacional de casos-controle, a hipótese de usuários de água vulnerável nestas regiões e exposição a pesticidas é a mais comentada pelos pesquisadores envolvidos na pesquisa…
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Proximity to Golf Courses and Risk of Parkinson Disease. JAMA Open Network 2025.
Assunto importante nos últimos dias!!!
ATENÇÃO! A VERDADE! …
O público em geral comecará a ver muitos perfis de médicos oferecendo a “cura” ou “regressão de sintomas” para #demencia e para o #Alzheimer, com drogas novas recentemente aprovadas por agências que regulam drogas e medicamentos, no mundo e Brasil. Cuidado… MUITO CUIDADO!
Não existe cura. Não existe milagre. Não existe regressão de sintomas.
Estas drogas novas estão sendo usadas, é um começo de esperança para tratar a doença. Mas nada de realmente efetivo, de efeito consistente em resultados que realmente impactem a evolução desta terrível doença que afeta milhões em todo o mundo.
Não à toa, agências na Europa, Reino Unido, e outros países com regulação restrita, têm barrado o uso indiscriminado das novas terapias…
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A verdadeira estratégia é escolher bem o profissional que cuida de seu familiar, verificar suas credenciais, sua formação médica e de residência, especialização, se possui RQE no conselho de seu estado, e PRINCIPALMENTE, adotar a #prevencao , com o controle de tudo que está na figurinha destacada.
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Se virem anúncios de cura, reversão e milagres sendo prometidos. ABRAM O OLHO! DESCONFIE. E fuja deste profissional.
Trata-se de informação FALSA.
Esta metanálise foi feita pelo grupo de Dor Neuropática da IASP (International Association for the Study of Pain), como forma de atualização de suas diretrizes, avaliando 313 ensaios clínicos e totalizando 48.789 pacientes portadores de dor neuropática de diversas etiologias. O artigo foi recentemente publicado na Lancet Neurology, e seu acesso está aberto, dada a importância do tema na prática neurológica geral.
Resultados
Eficácia primária e desfechos de segurança para:
Conclusões: Recomendação forte para o uso de tricíclicos, análogos GABA e inibidores de rcaptação duais como primeira linha de tratamento. Menor força de recomendação para capsaína e lidocaína em patch; e terceira linha de tratamento para rTMS, toxna bolulínica e opióides. Tabelinha resumindo o artigo, abaixo (clique em cima da imagem para ver em close).
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