Dissecção da Artéria Carótida: AVC em jovem, sintomas e tratamento

Por Maramelia Miranda ** . Atualizado em Maio/26. 

Tags: Dissecção da artéria carótida, dissecção de carótida, AVC em jovens, dor no pescoço e dor de cabeça, síndrome de Horner, angiotomografia carótida, tratamento dissecção carotídea

 

A dissecção da artéria carótida representa uma das causas mais frequentes de Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCi) em adultos jovens e de meia-idade (indivíduos com menos de 50 anos).

Trata-se de uma condição vascular grave, mas altamente tratável quando identificada precocemente. Compreender seus sinais de alerta é fundamental para evitar complicações neurológicas permanentes.

O que é dissecção da carótida?

A artéria carótida é um dos principais vasos sanguíneos responsáveis por levar sangue oxigenado ao cérebro. A dissecção ocorre quando há uma laceração na camada interna da parede arterial (túnica íntima).

Esse rasgo permite que o sangue entre entre as camadas da parede do vaso, criando um falso lúmen (um canal anômalo) e um hematoma intramural. Esse acúmulo de sangue pode provocar dois problemas principais:

  • Estenose ou Oclusão: O inchaço da parede reduz ou bloqueia a passagem de sangue para o cérebro.
  • Formação de Trombos: O sangue estagnado na laceração pode formar coágulos que se desprendem e navegam até as artérias cerebrais, causando um AVC Isquêmico.

Diagrama mostrando o mecanismo de formação do hematoma na camada interna da artéria carótida, durante a dissecção arterial da carótida interna. 

 

Principais causas e Fatores de Risco 

A dissecção carotídea pode surgir de forma espontânea ou ser desencadeada por traumatismos cervicais. Diz-se ser espontânea quando não houve nenhum fator traumático ou força física local na região cervical.

1. Traumas Cervicais (Mecânicos)

É a causa mais comum de dissecção das artérias cervicais (carótidas e vertebrais). Pode decorrer de:

  • Traumas de alta energia: Acidentes automobilísticos, quedas ou agressões diretas no pescoço.
  • Microtraumas ou hiperextensão cervical: Movimentos bruscos de rotação ou extensão do pescoço em práticas esportivas, exercícios físicos violentos, manipulações cervicais bruscas (como certas técnicas de massagem ou fisioterapia), certas posições de yoga ou até o movimento abrupto da cabeça em shows (headbanging).

2. Condições Genéticas e Doenças do Tecido Conjuntivo

Pacientes com fragilidade estrutural na parede dos vasos possuem maior predisposição à dissecção espontânea. As principais condições associadas incluem:

  • Displasia Fibromuscular (DFM)
  • Síndrome de Marfan
  • Síndrome de Ehlers-Danlos vascular
  • Lúpus Eritematoso Sistêmico e outras vasculites/doenças reumatológicas

 

Quais os sintomas da dissecção da carótida???

Os sintomas podem variar desde um quadro de dor isolada até a manifestação súbita de um deficit neurológico grave.

1. Dor Cervical e Cefaleia (Sinais Precoces)

A dor local costuma ser o primeiro sintoma da dissecção.

  • Localiza-se habitualmente na região lateral do pescoço (unilateral) ou na linha da mandíbula.
  • Pode irradiar para a cabeça (cefaleia frontal ou temporal), apresentando-se com caráter inédito, atípico e diferente de dores de cabeça habituais ou enxaquecas.

Atenção: Em alguns casos, a dor no pescoço ou na cabeça é o único sintoma presente, sem a ocorrência imediata de isquemia cerebral.

2. Sintomas de Acidente Vascular Cerebral (AVC)

Quando ocorre o bloqueio vascular ou a embolização de coágulos, surgem os sintomas neurológicos focais, de início súbito e abrupto:

  • Fraqueza, dormência ou paralisia em um dos lados do corpo (face, braço ou perna);
  • Dificuldade repentina para falar ou compreender a fala (afasia ou disartria);
  • Perda visual súbita em um dos olhos (amaurose fugaz);
  • Rebaixamento do nível de consciência ou coma (nos casos graves de grandes oclusões).

3. Síndrome de Horner ou Acometimento de Nervos Cranianos

A dissecção pode comprimir fibras simpáticas ou nervos adjacentes no pescoço, levando a quadros mais raros:

  • Síndrome de Horner: Queda parcial da pálpebra (ptose), constrição da pupila (miose) e dor ocular no mesmo lado da dissecção.
  • Paralisias de nervos cranianos: Alterações na movimentação da língua (nervo hipoglosso), dificuldade de deglutição (nervo vago) ou assimetria facial (nervo facial).

Porém, infelizmente o principal sintoma da dissecção carotídea é o paciente ter um AVC repentinamente: ter sintomas de AVC decorrente do acometimento da carótida, como uma fraqueza súbita no braço, na perna, uma alteração ou dificuldade da fala repentina, ou uma paralisia do lado inteiro do corpo, ou até mesmo ficar paralisado e entrar em coma.

Pode acontecer de tudo. Lembrando que sempre o AVC ocorre subitamente, de um minuto para o outro. Nunca lentamente, ou insidiosamente, progressivamente. Depois do AVC ocorrer, na investigação, se descobre que foi por causa da dissecção.

É importante lembrar que alguns pacientes podem apresentar a dissecção da artéria carótida apenas com o sintoma de dor na lateral do pescoço e da cabeça, dor no ouvido, geralmente dor do tipo inédita, diferente, estranha do habitual que o indivíduo tem, sem haver nenhuma isquemia.

Casos mais raros podem ter sintomas mais estranhos, como dor no olho do lado dissecado, mudança do tamanho da íris ipsilateral e queda da pálpebra do lado afetado (o que chamamos de Síndrome de Horner), além de paralisias de outros nervos cranianos, como o nervo facial, hipoglosso, ou nervo vago e acessório. Estes casos são mais difíceis de serem reconhecidos, pela sua raridade.

 

Como é feito o diagnóstico da dissecção carotídea?

Na presença de suspeita clínica — especialmente em pacientes jovens com dor cervical atípica ou sintomas de AVC —, a investigação por exames de imagem deve ser imediata:

  • Angiorressonância Magnética (Angio-RM) de Crânio e Pescoço: É o exame de escolha para visualizar a parede arterial, identificar o hematoma intramural, o local exato da dissecção e avaliar se houve lesão isquêmica no tecido cerebral.
  • Angiotomografia Computadorizada (Angio-TC): Exame rápido e amplamente disponível em prontos-socorros. Enquanto a tomografia simples pode ser normal na fase inicial, a angiotomografia mapeia a anatomia vascular com alta precisão, evidenciando o afilamento ou oclusão do vaso.
  • Arteriografia Cerebral (Angiografia por Subtração Digital): Método invasivo realizado via cateterismo. É reservado para casos de dúvida diagnóstica ou quando há planejamento de intervenção endovascular.
  • Investigação Complementar: Exames laboratoriais de rastreio reumatológico, painel genético e ecocardiograma podem ser solicitados para pesquisar causas subjacentes.

 

Qual o tratamento da dissecção da carótida?

Todo caso de suspeita ou confirmação de dissecção da carótida exige internação hospitalar imediata para monitoramento neurológico contínuo e prevenção de complicações. A maioria dos pacientes deverá receber primariamente o tratamento com medicamentos, não sendo necessário nenhum tipo de procedimento ou cirurgia.

1. Tratamento Clínico (Farmacológico)

O pilar do tratamento na fase aguda é a prevenção de novos eventos embólicos:

  • Antitrombóticos: A escolha entre anticoagulantes (como heparina seguida de anticoagulação oral) ou antiagregantes plaquetários (como aspirina ou clopidogrel) é individualizada pelo neurologista. Estudos clínicos mostraram benefício dos dois tipos de medicamentos; entretanto, para determinados tipos de estenose da dissecção, anticoagulantes podem ser mais eficazes na fase aguda (primeiros 30 dias).
  • O tratamento medicamentoso costuma ser mantido por 3 a 6 meses, tempo necessário para a cicatrização e remodelação natural da artéria.

2. Intervenção Endovascular

É raro haver a necessidade de procedimento encovascular em dissecções, tanto da carótida quanto das vertebrais, e apenas em casos selecionados, podem ser avaliadas terapias como a angioplastia com implante de stent ou embolização de aneurismas:

  • Falha do tratamento clínico (por exemplo, quando ocorre isquemia recorrente ou flutuação dos sintomas neurológicos, a despeito da medicação via oral).
  • Nas primeiras horas do AVC, se houver oclusão de grande artéria intracraniana, com limitação crítica de fluxo sanguíneo, a trombectomia mecânica está indicada.
  • Formação de pseudoaneurismas progressivos ou sintomáticos.

Prognóstico e recuperação?

O prognóstico dos pacientes com dissecção da artéria carótida é variável e depende diretamente da extensão da lesão, do diâmetro do vaso acometido e, principalmente, de ter ocorrido ou não um AVC antes do início do tratamento.

Com o diagnóstico precoce e a instituição rápida do tratamento adequado por uma equipe especializada em Neurologia Vascular, a maioria das dissecções recanalizam espontaneamente ao longo dos meses, permitindo uma boa recuperação funcional.

 

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** Dra. Maramélia Miranda é neurologista clínica. Fez residência e pós-graduação em Neurologia pela UNIFESP-EPM, e é especializada em AVC, neurointensivismo e Doppler Transcraniano, Neurologista vascular, CRM-SP 88.549, RQE 97.572

153 thoughts on “Dissecção da Artéria Carótida: AVC em jovem, sintomas e tratamento”

  1. Faz dois meses q sinto uma dor terrivel do lado esquerdo do pescoço..na veia..nao posso me alimentarrr q depende do q como sinto dores depois de umas duas ou 3 horas..sinto pulsante no ouvido tbm

  2. Eu estou sentindo uma dor incomoda do lado direito do meu pescoço no pé do ouvido sinto que parece ser a veia uma dorzinha que nunca tive

  3. Olá,mim chamo deziane e tenho 28 anos
    Estou sentindo uma dor no lado esquerdo do meu pescoço,e tem hora q lateja e mim sinto fraqueza nos braços,pernas,eu não consigo dormir mais direito,por causa dessa dor e sinto palpitaçães no peito,mim ajude pelo o amor de Deus,sou pobre e não tenho recursos pra fazer exames, estou sofrendo muito

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